2009-06-14

A Amizade na Blogosfera

O Paixão dos Sentidos embora seja escrito apenas por mim, tem o imenso contributo de todas as pessoas que vivem ou trabalham comigo. Quando não estou em condições de escrever, quando perco esta vontade de vir aqui ao fim do dia para vos contar uma ou outra história que nos tocou, ele pára mesmo.
Este fim de semana antecedido por feriados, serviu para uma grande reflexão sobre a relação das pessoas e a amizade em todas as suas nuances que a Internet pode proporcionar.
Pensámos na quantidade de amigos tão queridos que nos foram contactando desde que há 3 anos demos vida a este blog, e que apenas conhecemos através da sua escrita, ou nos comentários ou nos mails que nos fazem chegar com alguma frequência. Alguns até com ideia aproximada de como são, pelas fotos que igualmente nos enviam.
Pensámos na quantidade de amigos tão especiais que conhecemos já pessoalmente graças a esta permanente troca de ideias: o Ezequiel, a Dulce, o Américo Rodrigues, o Americo Jorge, o Armando Lopes, o Luis Barros, o Rodrigo Lazcano, a Nuria, o Joaquim Santos, o Carlos Gonçalves, o Alberto Alves, o Miguel Ângelo, o Sílvio Leiria...
Pensámos nos tupinambos que finalmente crescem na horta graças à simpatia da Elsa Gonçalves e da Caryn, na série de vasos com arvorezinhas tropicais e ervas aromáticas oferecidas pelo Filipe, no “jardim do Augusto”, que é como baptizámos um espaço repleto de vasos com as plantas mais diversas que nos tem chegado através dele, assim como uma série de apetrechos de jardinagem.
E o Mário que depois nos ter convidado este fim de semana para visitarmos a sua casa em Benavente, tinha à nossa espera uma série de pequenos inventos muito úteis feitos por ele, mais uma máquina de lavar roupa que deixou de lavar para ter uma jante de mota soldada ao motor de centrifugação, permitindo assim o movimento de um cabo de aço entre esta jante e uma outra colocada num local distante com o intuito que esse cabo ao girar e levando uma série de fitas coloridas penduradas, pudesse espantar a passarada que tem vindo a dizimar as nossas plantações. E ainda o surpreendente Robot-Miguel, espantalho curiosíssimo, que possivelmente nem sequer irá para o campo espantar os corvos, tal é o carinho que sentimos por ele para não o expôr ao desgaste das intempéries e que, muito sinceramente, nem soubemos arranjar palavras para expressar o nosso agradecimento ao Mário por tamanha oferta.


Por todas estas manifestações de tanto carinho e amizade, resolvemos não publicar o texto já alinhavado para o encerramento definitivo deste blog. Em sua substituição publicamos este, acompanhado de um fortísssimo abraço a todos aqueles que nos estão a ler neste momento.
E vamos seguir em frente. Obrigada a todos!

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2009-04-30

Perdendo pedaços de mim...

Foi com estupefacção que tive conhecimento da tua morte através do curto mail enviado pela tua companheira que nunca conheci.
Ficava assim esclarecido o teu silêncio nestes últimos meses, a falta de resposta aos meus telefonemas, a ausência das palavras amigas no dia do meu aniversário.



Fechei os olhos e as recordações foram emergindo…








A primeira vez que nos vimos foi num treino de judo em Almada. Eras iniciado e o mestre escolheu-me para tua parceira avisando-me para começar no chão. Ensinei-te a posição do Hon-gesa-gatame. Deitaste-te de barriga para cima e eu sentei-me ao lado com as costas juntas ao teu corpo, pernas afastadas à frente, passei o meu braço em volta do teu pescoço, encostei a minha cabeça à tua e disse-te: - Agora vê se sais daí!
E tu esperneavas, tentavas virar-te, davas esticões com o corpo e não conseguias sair da imobilização. De repente tive a ideia de te surpreender com um nami-juji-jime. Deslizando sobre ti, sentei-me sobre o teu tronco, de joelhos no chão e apertando-te com as coxas meti as mãos no gola do teu quimono, apertei de forma a bloquear ligeiramente as carótidas e disse-te: - Agora não vais conseguir sair daí. Bate com a mão no chão!
E tu com voz sumida: - Para quê?
-Para dizeres que desistes!
-Não desisto! Mas que bruta!!
E eu apertei um pouco mais: -Bate!!
- Não bato!!
E o grito do mestre: Soremade!!
Larguei-te logo. O mestre a correr para nós: - Mas que disparate é esse, ó Ana?!!
Nunca senti o tal espírito de judoca que o mestre apregoava e não gostava de estar a ensinar novatos. Mas mais tarde quando o mestre gritava “Randori!” e escolhiam-se parceiros, quando levantava os olhos depois de ter ajeitado o quimono e o cinturão, já sabia que te ia ter à minha frente de sorriso espalhado no rosto, fazendo a saudação e caminhando decidido para mim dando início ao combate e não permitindo a repetição daquele primeiro dia.





… a pulseira em aço batido, feita por ti e que usei durante anos para te manter junto a mim…







No alto das escarpas da Fonte da Telha, deitados sobre as ervas secas, observávamos as nuvens que deslizavam suavemente fundindo-se umas nas outras.
-Aquela ali é um cavalo! – dizias tu de dedo espetado para o céu - Está a transformar-se… olha agora é um barco.. estás a ver?
E eu acenava que sim
-E agora… espera.., espera… ah, agora é um pássaro, viste?
- E que pássaro? –perguntava eu
- Deixa-me ver bem… é um tentilhão!
E soltávamos gargalhadas adolescentes que voavam ligeiras em direcção ao mar
-Diz-me mais nomes de pássaros…
- Milheiras…. felosas… piscos… cachapins…. sabes que passarinho é este que está a cantar?
- Um melro!
-Oh não! Ainda não aprendeu a reconhecer o rouxinol?
E de novo as gargalhadas esvoaçavam sobre nós até se sumirem levadas pela brisa




... as pardelhas que procuravas só para me fazer feliz…







Teste de tuberculina positivo. O médico ligou o radioscópio e quis que eu visse a sombra que se espalhava sobre o teu pulmão. Depois de um abraço carregado de medos, partiste para as terras quentes do teu Alentejo.




… o pequeno tear que construíste para eu aprender a tecer com junco…







Numa manhã fria e chuvosa, aguardavas a minha passagem meio escondido debaixo de um toldo escuro. O cabelo desgrenhado e a barba escura no teu rosto gelado de lábios arroxeados eram estranhos aos olhos incendiados pela alegria de me ver aparecer. O teu corpo tremia e receei que desmaiasses ali, sem saber o que sentias e o que pretendias. Sentámo-nos à mesa de uma pastelaria e pedimos bebidas quentes. Não disseste nada e eu também não. Pegaste nas minhas mãos e depuseste um beijo morno. Levantaste-te e partiste





… os cestos miniatura que concebias para eu aprender cestaria…






Os teus olhos baixaram comovidos sobre a mesa quando coloquei no teu pulso a minha velha pulseira de prata. Ao nosso lado, a empregada varria o chão atirando para a frente beatas, pacotinhos de açúcar, guardanapos, caricas…
- É para usar sempre? - perguntaste. E o rosto iluminou-se com o teu sorriso lindo quando te disse que sim






... os ouricinhos sem mãe para eu acabar de criar...






Parados no cais com os olhos afundados no Tejo, disseste: - Gostava de fazer uma viagem no meu barco, sem tempo nem destino. Queres vir comigo? Só os dois?
Fixei os teus olhos fundos que se prenderam nos meus numa carícia entristecida e senti no teu abraço quente, um pedido de desculpa.




… a tua insistência para que eu reparasse na beleza das flores minúsculas que espreitavam dos prados…







Estendidos sobre a relva, olhávamos para uma joaninha que hesitava caminhar sobre a tua mão ou a minha. Preferiu a tua e acelerada trepou o dedo que mantinhas espetado. Com as cabeças juntas cantarolámos baixinho: - Joaninha, avoa.. avoa…
E ela abrindo as asas partiu esvoacejando, tal como tu fizeste recentemente levando contigo uma parte de mim que nunca mais irei recuperar.


Post Scriptum: Em Outubro de 2006 num texto que publiquei aqui com o nome “As saudades de um amigo”, terminaste deste modo o teu comentário “Ainda assim tomara que alguém escreva um texto tão bonito quando eu morrer como o que escreveste sobre ele”
Sinto uma tristeza imensa por não ter conseguido escrever à altura do que mereces, Fernando. Mas deixo aqui expresso o enorme carinho que sempre senti por ti e o desgosto desmedido por teres partido definitivamente da minha vida, apenas suavizado por tão doces recordações

2009-03-30

A vingança dos cogumelos

Há tempos atrás, ao passearmos por uma zona da quinta que mandámos alcatroar logo após o grande incêndio de 2006, estranhámos ver umas elevações, tipo bolhas, que apareciam mais ou menos no meio desse caminho, parecendo ser acção das raízes dos pinheiros que se vêem ao lado.


Passámos a estar mais atentos e fomos seguindo a sua evolução. Primeiro aparecia o alcatrão estalado e com este aspecto:


Depois, passados poucos dias começava a elevar-se



Até que finalmente ao vermos a placa de cima afastada como se tivesse havido acção da mão de alguém, percebemos que a responsabilidade do ocorrido não eram as raízes dos jovens pinheiros, mas sim um fungo que finalmente mostrava o seu rosto


Lembrámo-nos então de uns cogumelos muito feios, com a forma de uma flor quase preta, de pétalas grossas que baptizámos como “Flor do Diabo” e que aparecia com alguma frequência na zona dos pinhais. No início tem este aspecto:


Depois fica parecido com a tal flor escura, cheia de esporos que se levantam com o vento

(Esta foto foi retirada da Net)


E com o tempo envelhece ficando com este aspecto


Quando as dúvidas recaem sobre cogumelos, pedimos ajuda ao
Manel que publicou o nosso problema no fórum:. http://cogumelosportugal.forum-livre.com/
Passado muito pouco tempo fomos informados que se tratava do cogumelo
Scleroderma polyrhizum

Disse-nos o Manuel: “Estes cogumelos são micorrízicos, ou seja, vivem em simbiose com as árvores. O micélio leva até à raiz da árvore nutrientes que de outra forma esta não conseguiria absorver (minerais) e vaí lá buscar (à arvore) a glicose que, por ser um fungo, não elabora a fotossíntese, logo não a consegue sintetizar. Essas estruturas miceliais são bastante grandes e podem durar até milhares de anos em alguns exemplares.
Quanto aos furadores de alcatrão, eles não são maus de todo, apesar do prejuízo que te causam. Estes cogumelos são considerados pioneiros. Ou seja, a sua função é preparar o terreno, para depois virem as espécies que nós gostamos de comer. É um sinal de saúde do terreno. A sua aparição é consistente com os pinheiros novos do lado direito da estrada”

Um dos participantes desse fórum publicou a notícia de um jornal da região de Zamora em Espanha (laopinióndezamora.es), que informa que a estrada que liga Valer de Aliste, Abejera de Tábara, Gallegos del Rio e Puercas, construída com um aglomerado especial de 10 cm de espessura, tendo em vista não necessitar de manutenção durante 10 anos e podendo suportar o peso de veículos até 16 toneladas, está a ficar parcialmente destruída pela acção dos Scleroderma polyrhizum
É incrível como um cogumelo que se desfaz facilmente nas nossas mãos, tenha a capacidade de levantar e afastar placas de alcatrão com esta espessura. Em Portugal são uma permanente dor de cabeça para o pessoal da JAE

A conclusão que se pode tirar deste fenómeno é que a culpa não pertence só aos cogumelos destruidores de estradas alcatroadas. Estas é que são cada vez mais invasivas, merecendo a reacção de uma Natureza sempre atenta.





2009-02-23

Uma pausa para conversar

Infelizmente os nossos trabalhos e preocupações aumentaram devido à doença do nosso caseiro que tem estado impossibilitado de nos dar o apoio costumeiro e por isso a nossa falta de tempo para prosseguirmos este blog.
O tempo chuvoso que se prolongou por muitas semanas foi muito bem vindo por ter ressuscitado pequenos veios de água que emergiram da terra dando-nos a alegria de tornar a ouvir pequenos riachos saltitando de pedra em pedra na descida em busca do rio.
Não sabemos ainda como orientar os imensos trabalhos do início da primavera que vão depender da saúde e disponibilidade dos nossos auxiliares. Mas, enquanto não arranjamos tempo para estar calmamente a preparar um tema para publicar neste blog, resolvemos ir dando algumas notícias deste cantinho.

Começamos por vos apresentar os novos residentes:

A Camila, uma Serra-da-Estrela bébé no dia em que a deixaram aqui

Ficámos muito preocupados porque sempre ouvimos dizer que são cães com um feitio muito independente e um bocado teimosos, sendo uma dor de cabeça durante a aprendizagem. Mas como é a primeira vez que convivemos com esta raça, vamos a ver o que nos sai na rifa :))

Na foto abaixo, agora com 3 meses já se consegue ver a sua preocupação em fazer uma boa guarda. Daqui a pouco tempo vai passar a dormir com o rebanho para se tornar numa protectora das ovelhas e principalmente dos borregos


O outro novo residente é o Tobias, um faisão prateado que tem o pomposo nome cientifico de Nycthemerus argentatus. Dizem que em cativeiro pode viver até 20 anos.


O Tobias quando está enervado ataca o tratador que já entra à defesa por saber que ele investe voando e com as patas para a frente. Mas o que mais nos diverte é um dos seus sons que consiste num gargalhar baixo e continuado que mais parece estar a gozar com todos nós

Aqui vai uma outra foto para mostrar a sua cabeça com um penteado todo moderno:


E por último o casal Afónico, sempre sorridente, de feitio calmo mas preocupados com a nova postura de Primavera, seguida de choco e evitando problemas com os gansos seus companheiros conhecidos pelo mau-feitio nesta altura do ano.



Depois de fazer esta necessária apresentação, vamos falar sobre a evolução de um dos presentes do Pai Natal:

Este ano fomos surpreendidos com 3 ofertas para produzirmos cogumelos comestíveis:
A primeira tratava-se de um saco coberto de plástico com a indicação de não lhe mexermos e apenas esperar que os cogumelos aparecessem. Passados poucos dias, apareceram 4 formações pequenas que cresciam visivelmente todos os dias até ficarem com este aspecto




São os Repolga - Pleurotus ostreatus que embora já devesssem ter sido colhidos antes de chegar a este ponto, poucas horas depois já estavam no prato...




... por terem sido passados num pouco de azeite onde se fritaram uns dentes de alho, acompanhados por couves-de Bruxelas salteadas e azeitonas da quinta. Falta o toque de cor da betterraba crua ralada, também temperada com um fio de azeite, alho picado e sumo de limão.

Como todos já sabem, o nosso contacto com cogumelos limita-se aos de lata ou congelados. Mas podem crer que foi uma enorme e agradável surpresa saborear o paladar destes (destas?) repolgas.

Ainda temos outro saco para fazer uma mistura e experimentar ter cogumelos em canteiros e ainda um outro tipo de cultivo que depois vamos fotografar os vários passos e que consiste em fazer vários furos com determinadas espessuras em troncos de carvalho e introduzir uma espécie de "buchas" cheias de esporos que são enfiadas nesses orifícios e depois esperar uns meses até aparecerem os cogumelos que neste caso serão os Flammulina velutipes e os Shitake, qualquer deles assustadores só de olhar para as fotos :))

E por último vou falar de uma tarefa que neste caso foi de minha autoria para aproveitar os dias de chuva. Estava perante uns sacos cheios de peúgas a já não merecerem o tempo que seria necessário para cobrir os inúmeros buracos com linhas que os disfarçassem. Poderia simplesmente agarrar naquilo tudo e enviar para o lixo mas de repente ocorreu-me uma forma divertida de reciclar.

Com uma tesoura abri a peúga de alto a baixo dos dois lados, formando uma tira comprida, estreita e só com uma face e depois dei um ponto ou dois para a ligar à meia seguinte também aberta e assim fui fazendo um longo “fio” de meias que fui enrolando, e passado pouco tempo já fazia tiras de camisas velhas e outros trapos:

A seguir imaginei que os meus dedos fariam o trabalho de uma agulha grande de crochet e fui passando o “fio” como se se tratasse de uma renda gigante. Ficou um tapete engraçado:




E fiz mais uma série deles, rectangulares e ovais que pus nas camas dos meus cães. Ficam pesados e a maior vantagem que têm é quando nos cansarmos deles poder dar-lhes sumiço e fazer outros novos. O trabalho mais aborrecido é abrir as peúgas e ligá-las porque depois o tapete faz-se num abrir e fechar de olhos.

E vamos terminar prometendo publicar outro post em breve.

Um abraço e um muito obrigado a todos os amigos que nos escreveram preocupados com o nosso silêncio

2009-01-25

Depois do temporal


Na noite passada dormimos pouco, preocupados com o forte temporal que desabou nesta zona com chuva intensa, trovoada e vento ciclónico que poderia provocar imensos estragos nas casas velhas e na floresta.
Pela manhã, ainda com aguaceiros, saímos para dar uma volta á quinta e inteirarmo-nos dos possíveis danos.
Infelizmente não foi preciso andar muito para nos apercebermos estupefactos da queda de um robusto cedro que não conseguiu manter o pé firme num terreno mole de tão alagado pela chuva persistente dos últimos dias.



Uma árvore morta ou moribunda dá-nos sempre um desgosto imenso. É como se fosse a perda de um animal de estimação.
Se fosse um arbusto pequeno, poderíamos levantá-lo, apertar a terra em volta da raiz e assim ajudá-lo a sobreviver. Mas o que nos encantava neste cedro - a sua imponência – foi o que nos impossibilitou qualquer tentativa para o salvar.
Vai ser difícil adaptarmo-nos àquele espaço vazio, à falta daquela presença majestosa e da sua sombra amiga nos dias quentes de Verão.
Mas depois de passados os primeiros momentos de amargura, tivemos que agir rapidamente até para termos noção dos estragos.
E a manhã passou-se com todo este trabalho para o qual tivemos a ajuda de vizinhos.


O passeio até ao Cabeço da Neve no Caramulo que tínhamos combinado fazer de manhã, só pôde ser feito pelas 4 da tarde. Íamos calados e tristes ainda que a mãe Natureza nos quisesse compensar com a visão de um nevão que nos acompanhou saltitante durante toda a viagem pela serra. Infelizmente esquecemo-nos da máquina fotográfica em casa.

2009-01-06

Presente de Natal atrasado

Em primeiro lugar pretendemos esclarecer a razão deste nosso afastamento durante uma época em que todos se procuram e dão sinais de vida nem que seja só uma vez no ano.
Desta vez tivemos uma visita inesperada do conhecido vírus A, subtipo H3N2 devidamente identificado e que simpaticamente ficou connosco, mais propriamente comigo, de uma forma pacata, oferecendo-me apenas uma febre alta e dores no corpo que me levaram à cama mas apenas por 2 dias. Permitiu que cumprimentasse o Pai Natal, que não se esquece de nos visitar anualmente, mas pouco mais me deixou fazer.
No dia de Natal o nosso amigo vírus resolveu fazer as malas e partiu aproveitando a boleia de outro corpo. Como prémio de consolação deixou-me uma tosse cavernosa e uma fadiga imensa, das quais ainda não consegui recuperar.
Por isso a falta de textos e de fotos, o que muito nos incomodou porque era nossa intenção deixarmos aqui a receita das Fatias da China para a Festa de Natal ou Passagem de Ano, como tínhamos prometido há tempos a uma amiga nossa.
Mas não desistimos da ideia e por isso aqui vai ela que podem experimentar na Festa dos Reis ou até mesmo naquelas pequenas festas que por vezes oferecemos a nós próprios.
As Fatias são facílimas de fazer e impressionam sempre os amigos pelo seu aspecto tão bonito.
Primeiro batem-se muito bem 12 gemas de ovos até ficarem espumosas e depois deitam-se num tacho muito bem untado e cozem-se em banho-maria.





Como podem ver na foto acima, nós colocamos as gemas num tacho de forma a caber num outro que contém água que fica a ferver até ao completo cozimento das gemas. Se tiver dúvidas, espete com o palito como faz normalmente com os bolos.
Depois de bem cozidas, desenforme, corte em fatias pequenas e ponha numa taça de ir à mesa.
A seguir faça uma calda com meio quilo de açúcar em meio litro de água, deixe ferver sem fazer ponto e cubra as fatias com ela. Normalmente fazemos na véspera para as fatias ficarem bem embebidas com o doce da calda
Vão ficar com este aspecto:



Para não se tornarem muito enjoativas convém depois fazer um acompanhamento que pode ser como esta nossa sugestão:
Num tachinho ponha tiras muito fininhas de casca de laranja sem o branco e ferva com um pouco de açúcar, água e sumo das laranjas por uns minutos mas sem deixar fazer ponto.
Noutra taça de ir á mesa, ponha laranjas descascadas e cortadas em pedaços finos e deite por cima a calda com as tirinhas de casca fervidas à qual deve juntar um cálice de Licor Beirão.
No momento de servir retiram-se umas fatias para uma tacinha individual e regam-se com o molho feito com as casquinhas de laranja
Digam-nos lá se para já não é um encanto para os olhos :))))))))

Um Bom Ano Novo para todos!



2008-12-17

A azeitona nossa amiga

Primeiro um pouco de história:
Presume-se que em 3.000 aC já existiam oliveiras por todo o Crescente Fértil. Terão sido os gregos que as expandiram por toda a Europa Mediterrânica. Mais tarde foram os portugueses e os espanhóis que nas suas expedições marítimas as levaram até ás Américas e aos poucos foram-se espalhando por todas as partes do mundo com clima favorável.
Os gregos e os romanos eram grandes apreciadores de azeite que utilizavam na cozinha mas também como combustível para iluminação, medicamento, perfumes, bálsamo, lubrificante de alfaias, impermeabilizante de tecidos, etc.
As coroas e grinaldas que identificavam os vencedores eram feitas com ramos e folhas de oliveira. Com a sua madeira eram construídos ceptros reais.
A oliveira sempre foi considerada símbolo de sabedoria, paz, abundância e glória.
Sobre saúde:
O azeite tem efeitos muito benéficos sobre o organismos, favorecendo a mineralização óssea, estimulando e crescimento e favorecendo a absorção do cálcio. Ao reduzir a formação de radicais livres, combate o envelhecimento dos tecidos e órgãos em geral ajudando a prevenir alguns tipos de cancro. Contribui para o bom funcionamento da vesícula biliar, do estômago e pâncreas actuando também a nível intestinal. Ajuda a prevenir doenças cardiovasculares. Tem um efeito protector e tónico da epiderme. Melhora as funções metabólicas e previne a diabetes.
Aqui vai a sua composição segundo elementos retirados da Net:
Vitamina A - 250 U.l.
Vitamina B1 (
Tiamina) - 10 mcg
Vitamina B2 (
Riboflavina) - 15 mcg
Vitamina C (
Ácido ascórbico) - 6 mg
Potássio - 1530 mg
Sódio - 130 mg
Cálcio - 100 mg
Fósforo - 15 mg
Silício - 6 mg
Magnésio - 5 mg
Cloro - 4 mg
Ferro - 1 mg
Agora a nossa aventura:
Este ano colhemos a azeitona que felizmente tivemos em quantidade e de belíssima qualidade ao contrário do ano passado que nem deu para se aproveitar.
Aqui seguem as fotos que melhor explicam as várias fases:


Nesta foto vê-se o pessoal a apanhar a azeitona nos panais verdes depois de ter sido ripada (passar com a mão pelos ramos de forma a fazer cair os frutos) ou varejada nas zonas mais altas, o que se evita ao máximo para não prejudicar as árvores. Também se vêem muitos ramos cortados no chão devido às podas que se fizeram na mesma altura para deixar as arvores menos densas. Na verdade não seria agora a melhor altura para as fazer. Mas é costume aproveitar, uma vez que andam empoleirados, para fazer as podas mais ou menos razoáveis.


A seguir despejam baldes de azeitona no erguedor eléctrico que com deslocação de ar separa as folhas (mais leves) depositando-as num monte, das azeitonas (mais pesadas) que são depositadas num local oposto


Nesta foto mostra parte das azeitonas colhidas e limpas. No reboque já estão caixas de plástico com ranhuras para deixar escorrer a água das azeitonas que esperam a viagem para o lagar


Os potes mais pequenos reservámos para fazer conserva. Este ano optámos por outro processo e não as retalhámos, deixando as azeitonas numa salmoura de 1 quilo de sal por cada 10 litros de água, temperada com rodelas de limão e laranja, folhas de louro, ramos de orégãos, dentes de alho, e molhinhos de erva-azeitoneira. Ficam assim por um ou dois meses até perderem o amargo e depois pode-se começar a consumir retirando apenas as necessárias de cada vez .
E agora seguem as fotos com as várias fases por onde passaram as azeitonas até se extrair o azeite.
São necessários 5 a 6 quilos de azeitonas para se fazer 1 litro de azeite


Assim que as caixas chegaram ao lagar fez-se a pesagem


A seguir descarregaram-se aqui as azeitonas para serem lavadas



Depois da lavagem subiram por este tubo para o moinho onde foram esmagadas


Esta foto mostra o moinho ao fundo à direita. A pasta feita com polpa, peles e caroços passou para a máquina da esquerda com vários tabuleiros


Aqui vê-se um dos tabuleiros onde essa massa foi batida lentamente com aquecimento para se soltarem as gotas de azeite


Depois fez-se a separação da parte líquida: azeite e águas residuais, da parte sólida: o bagaço (que nada tem a ver com o outro bagaço “digestivo” feito a partir dos cachos de uvas).
Este bagaço misturado com azeite dá origem a alguns óleos alimentares


E nesta foto vê-se o azeite a ser misturado com água quente e a ser centrifugado…


… para finalmente se concluir o processo e podermos recolher o azeite das nossas azeitonas, com uma cor e aroma fora de série.
Na sequência das pesquisas feitas para desenvolver este tema, ficámos a saber que existe uma empresa espanhola que utiliza os caroços de azeitona para produzir biomassa e alimentar caldeiras. Uma matéria prima limpa, renovável e oito vezes mais barata do que os combustíveis derivados do petróleo. Segundo esta empresa, 2,5 milhões de toneladas de caroços será suficiente para gerar energia para 1,5 milhões de casas.
Aqui fica mais esta novidade.

2008-11-17

Não te esqueci, meu amigo

No meu tempo de adolescente uma das maneiras para se iniciar correspondência com alguém desconhecido era ler vários anúncios publicados nos jornais diários.
Foi assim que um dia resolvi responder a um pedido de um jovem brasileiro que pretendia corresponder-se com uma menina de Portugal dando início a um contacto que em breve daria origem a uma grande amizade que se prolongou por uns vinte anos.
Entrámos praticamente juntos na crise de uma adolescência partilhando todas as nossas alegrias e decepções.
Relia à noite as suas enormes cartas em que comentava a situação do Brasil de então, as dificuldades para se arranjar um emprego, os seus problemas para se manter na faculdade.
Imaginava-o fechado no seu quarto, ao entardecer, escrevendo-me cartas e postais enquanto contemplava distraído o evolar do fumo do seu cigarro.
Tratava-me carinhosamente por Emi e no meu aniversário, mais semana, menos semana, recebia um postal bonito e as palavras quentes de quem se sente ligado pelo coração.
Sujeitávamo-nos ao roubo constante de pequenos nadas que enviávamos dentro dos sobrescritos que eram continuamente violados, nunca percebi se aqui em Portugal ou lá no Brasil.
Chamava-se Meinardo, nome de flor, e foi sempre um companheiro presente, através de carta, nos grandes momentos da minha vida como foi o do casamento e nascimento dos meus filhos.
Ao fim de todos estes anos perdi as suas cartas e apenas guardo os postais com paisagens diversas do Brasil incluindo João Pessoa, zona onde vivia.
E também as fotos. As primeiras ainda muito menino e depois mais tarde já um homem de aspecto bondoso e olhar sonhador.
As cartas foram diminuindo em tamanho e frequência.. A minha nova vida de empregada bancária, o casamento, os filhos, o recomeçar dos meus estudos, não me permitia a disponibilidade necessária para continuar a escrever as longas cartas de outrora.
Mas houve uma altura em que deixei de receber a sua correspondência não respondendo sequer à insistência das minhas cartas que exigiam uma resposta breve. Vários meses se passaram até que um dia recebi um envelope debruado com as cores do Brasil que depois de aberto deixou cair um pequeno embrulhinho no meu colo e onde alguém escrevera “Abrir só depois de ler a carta”.
Saltando de linha em linha, fui lendo o relato plangente feito por um seu irmão que me contava de forma breve mas cautelosa, a morte de Meinardo no mar ao tentar salvar um primo arrastado pela ondulação forte quando brincava na praia .
Abri finalmente o embrulhinho que nada mais era que um pequeno cartão com a sua fotografia, a data de nascimento, 23.11.49 e a do seu falecimento, 3.3.80 (quatro dias antes do meu aniversário)
Li dificilmente entre lágrimas este elogio fúnebre: Ele descansa em paz. Seu nome hoje se encerra mas em nossos corações há-de permanecer. Cumpriu nobre missão sobre a face da terra: foi bom filho, bom irmão, bom tio, bom primo e bom amigo. Soube amar e sofrer.
Ainda hoje, quando folheio o álbum onde guardo as minhas recordações de menina, sorrio ao olhar uma foto que exibe o seu doce rosto e que tem escrito no verso uma frase que o tempo conseguiu dissipar a sua risibilidade “Basta me esquecer quando esta foto falar”

2008-11-02

Salamandras e Jeropigas

Dizem aqui na terra que quando se vêem salamandras é sinal que vai chover.
Pois há dias ao abrir a porta da cozinha quase ia tropeçando nesta lindíssima salamandra que erguida nas patas dianteiras e com a cabeça bem levantada, me vinha anunciar a chuva para breve. Só que deve ter vindo de muito longe e ao chegar aqui já chovia torrencialmente :)

- Obrigadinha, D. Salamandra! Mas não valia a pena incomodar-se tanto!...

A salamandra comum é um anfíbio Salamandra salamandra, ovovivípara, possui corpo negro com manchas amarelas por vezes avermelhadas de diversas formas e cauda longa. É animal nocturno, vive em locais de matas húmidas e frescas no nosso país, com necessidade da proximidade de água para a fêmea pôr as suas larvas (20 a 40) dentro de água. No entanto, depois de adulta perde a capacidade de nadar. Pode viver até aos 30 anos.
Perseguida desde sempre pelo homem que receia a peçonha ou a mordedura, no entanto não morde e a secreção cutânea irritante que usa para se defender dos predadores não nos afecta mesmo quando a seguramos na mão.
A da fotografia fartou-se de andar de mão em mão e embora enervada tentando sempre fugir, não deixou nenhuma irritação na pele.
Os antigos acreditavam que a salamandra era um animal demoníaco movimentando-se naturalmente por entre as chamas.
Ainda hoje é possível ver aparecer uma salamandra por entre as labaredas de uma lareira. Não por ser o seu habitat mas porque gosta de procurar durante o dia a frescura no interior de troncos velhos. E quando estes são apanhados e lançados na fogueira, as pobres tratam de fugir tendo realmente alguma resistência que se julga ser devido à tal secreção cutânea que as protege um pouco da queimadura das chamas.
O nome de salamandra que se dá aos aquecedores a lenha feitos em ferro, tem a ver precisamente com esta associação
É uma pena que seja tão detestada pelo homem uma vez que é utilíssima por se alimentar de moscas, mosquitos, caracóis, lesmas, centopeias, formigas, etc.

E agora sobre jeropiga:
Há umas semanas atrás comentava com o meu pessoal que tinha pena de não termos feito jeropiga. Primeiro porque não sabemos fazer, segundo porque não temos vinha e terceiro porque todos os vizinhos já tinham vindimado e a jeropiga é feita com o sumo de uva antes de fermentar. Mas um dos nossos auxiliares, homem prestável e sempre atento a estes pequenos desejos, andou a vindimar numa vinha abandonada e apareceu no dia seguinte, todo satisfeito com dois sacos cheios de cachos de uva branca e preta.
Ofereceu-se para ser ele mesmo a fazer e assim ensinar-nos.
Como era pouca quantidade decidiu-se espremer os cachos na prensa.



Depois de umas valentes espremedelas - porque é preciso ter força para esmagar os cachos - começámos a obter o sumo de uva, conhecido por mosto.



Obtivemos 9 litros de mosto ao qual se juntou 3 litro de aguardente (é esta a proporção). Mexeu-se muito bem e deixou-se descansar por algum tempo dentro de garrafões por não termos nenhum barril de madeira.
Na semana passada vimos que estava límpida e com um monte de borras depositado no fundo. Devia estar mais tempo sem ser mexida para ir ganhando mais sabor. Mas estávamos apressados para a preparar para o feriado de Todos-os-Santos e por isso enchemos duas garrafas e filtrámos o líquido usando um filtro dos de café..
Quisemos experimentar a clarificação natural que se usa no fabrico de licores e que consiste em juntarmos uma casca de ovo partida e uma clara ao licor, mexendo bem e deixando em repouso por 24 horas até se filtrar novamente
Deitámos uma clara de ovo e a casca esmagada à mão para dentro de uma das garrafas e deixámos a descansar.
No dia seguinte depois de tornarmos a filtrar, reparámos com alguma tristeza que tinha ficado demasiadamente baça o que nos desencorajou e nos levou a arrumar a garrafa e esquecermo-nos dela.
Ontem resolvemos fotografar as nossas bebidas e foi com satisfação que vimos que estavam ambas com um belíssimo aspecto.
Aqui vai a foto para verem a mesma jeropiga com o aspecto natural (a mais escura) e a clarificada com a clara de ovo, notando-se ainda algum depósito no fundo da garrafa




Mas como disse, foi apenas uma experiência. Na verdade apreciamos mais a sua cor natural que depende do tipo de uvas utilizado.
É muito agradável bebericá-la enquanto se vai saboreando um prato de castanhas assadas… ou cozidas… ou fritas e polvilhadas com canela :))

2008-10-16

A Horta do Thomé

Não conseguimos evitar de vos dar a conhecer um pouco do livro “A Horta do Thomé”, escrito por João da Motta Prego, ilustrado por João Alves de Sá, pertencente à "Biblioteca dos Meus Filhos" e publicado em 1909 pela Livraria Clássica Editora de A. M. Teixeira & Cta. Por incrível que possa parecer nos dias de hoje, era um livro destinado ás creanças.
Num arrabalde da cidade, vivia com grandes difficuldades uma família constituída pelo pae que era carpinteiro, a mãe que tratava das comidas, das roupas, da casa e de 10 filhos, sendo Thomé o mais velho com 12 annos de edade e que os paes dispensavam algumas horas para poder ir à escola e adeantar os estudos. O livrinho que mais o apaixonava e que lia e relia sempre que podia, era um que ensinava a tratar da terra e das plantas que o seu professor, o mestre tio Salomão, lhe emprestára.
Um dia o Thomé recebeu meio-tostão para pagamento de um pequeno trabalho e como era a primeira moeda que recebia, resolveu aplicá-la bem. Foi à cidade e depois de muitas hesitações resolveu comprar um pacotinho de sementes de Alface Loira Gigantea. Preparou um terreno no quintal, semeou, cuidou, e mais tarde com a venda destas alfaces arranjou dinheiro para comprar sementes diferentes e vamos assistindo à grande aventura deste jovem hortelão e dos seus irmãos, conhecendo as técnicas usadas na altura, sabendo os nomes das variedades semeadas, numa zona desconhecida do país onde o tempo favorecia sempre as culturas não dando origem a surprezas desagradáveis :)
Entretanto o Thomé fez 13 annos, e fica distincto no exame de instrucção primaria. O seu mestre aconselhou os paes a não gastar mais dinheiro com livros e mestres. “As lettras custam caras e rendem pouco à gente pobre. O rapaz tem geito mas é para hortelão. Lá por ahi há-de fazer caminho. Verão que não se arrependem”
Com as economias que vae fazendo, compra um burro chamado Figueiredo que é uma óptima ajuda no transporte dos productos pelas ruas da cidade, e à medida que o tempo passa compra um casal de coelhos para criação destinado à venda e ao consumo da casa, o bezerro Moysés para ajudar na faina quando crescido e um porco para engordar com as lavaduras da casa e detrictos da horta e matar-se pelo Natal para regalo da família, altura em que os mais novos tinham direito a beber uma pinguita de vinho branco.



As terras eram enriquecidas com estrume fabricado com o lixo da casa, detrictos da cozinha que se juntavam numa cova juntando aparas miúdas de madeira, folhas, hervas secas, cinzas da fornalha e da lareira e também com uma parte dos despejos líquidos da casa, n’uma altura em que o saneamento básico era um conceito desconhecido. Esses despejos líquidos eram guardados n’uma barrica vazia de petróleo, destamparada de um lado, collocada a um canto do seu terreno e destemperados com água quando usados directamente nas regas.
A lista das culturas é ennorme, explicando sempre a melhor forma de semear ou plantar: Cerefólio, Beldroegas, Raponcio, Funcho de Florença, Inhame, Lentilha, Mostarda, Rutabagas, Pastinagas, Escariola, Pimpinela, Escorcioneira, Salsifis, Aveia, Trigo, Cenoura Semi-Comprida de Nantes e Fusiforme, Rabanete Redondo e Semi-Comprido Rosa, Tomate commum, Beringella Violeta Comprida e Branca da China, Alho de sopa (alho francês) Monstruoso de Carentan, Salsa, Coentros, Segurelha, Tupinambos Vermelho e Amarello, Batatas Marjolin ou Franceza, Saucisse e Magnum Bonum, Cebola de Guimarães, Nabos de S. Cosme e de Guimarães, Feijão de trepar Vermelho e Mesclado, Manteiga-Marfim, d’Argel Preto; Feijões anões: Princeza, Amarello do Canadá, Preto d’Argel, Manteiga-Branco e Flageolet-Manteiga, Couve de Milão, Murciana, Gallega, de Cortar, Penca e Tronchuda. E os repolhos: Gigante das Hortas, Pão de Assucar, Coração de Boi, Saboya; Couve Flor Imperial, Broculo Branco Temporão, Exalotas, Ervilhas de trepar Príncipe Alberto, de casca ou de quebrar (ou come-lhe tudo) de trepar: Manteiga e Chifre de Carneiro, Beterraba Vermelha de Castelnaudary, Estragão, Melão Cavaillon, Cantaloup Prescott, Negro dos Carmelitas, Melancias Vermelhas de Aveiro e Santarém, Abóbora de Água ou Colombro, Napolitana (cucurbita moschata), Gerimu Parisiense, Porqueira do Norte, Chila, Cardo de Tours, Pimentão doce de Hespanha ou Catalão, Pimento picante vermelho comprido, Malagueta, ...

... Morangos de Meaux, Dr. Morère, Jucunda, Marguerite Lebreton, Capron Framboeza, sempre ajudados nos trabalhos pelo Tio Salomão, grande enthusiasta pelas cousas da lavoura.



(Faziam grelar as batatas-doces nos estufins para as plantarem em Abril ao ar livre)

Semeavam Fava commum e Fava de Sevilha e regavam diversas vezes com o líquido da barrica. Luiza ficava atenta às faveiras para quando florissem cortar a ponta dos novos rebentos e assim terem favas mais cêdo e mais gradas.
Nas Couves de Bruxellas apparecem muitos repolhinhos pequenos pelo tronco acima e que se desenvolvem muito depressa quando se corta a cabeça da couve. De modo que não se devia cortar a cabeça a todas ao mesmo tempo para a colheita ser mais prolongada
Chicorea Frisada de Maux, da Itália ou Fina de Verão, semeada em alfôbres, depois transplantadas para os canteiros e quando já não cresciam mais, estiolavam-se, enleando a planta com uma fita de palha, deixando só de fóra o extremo das folhas ou fechando-as e amontoando terra em volta, de modo a só apparecer no tôpo dos montículos assim formados, as pontas das folhas. As plantas assim preparadas não tomavam a côr verde e ficavam de um amarello esbranquiçado, muito tenras e appetitosas
Espargos da Hollanda e de Argenteuil. Semeavam em Março. No Outono preparavam-se as valas com estrume bem curtido. Na Primavera armava-se a espargueira transplantando do viveiro. Floresciam de Junho a Julho. Davam umas bagas vermelhas que seriam colhidas em Outubro. No mez de Novembro cortavam-se os troncos a uma altura de 15 cm. Descavavam-se as plantas e estrumavam-se na raiz cobrindo de novo com terra
Aipo Pleno Branco também estiolado atando as folhas com 3 laços de palha: um perto da base, outro a meia altura, e o último no tôpo, amontoando e aconchegando terra em volta até à primeira atadura e regando em seguida. Oito dias depois amontoavam até à segunda atadura e passados mais 8 dias outra amontoa até à terceira atadura. Mal estivessem branqueados era preciso colhel-os, senão estragavam-se.
Alcachofra Gigante de Laon e Violeta Precoce. Deixavam só uma cabeça em cada haste, supprimindo as secundarias. Depois da colheita cortavam rente à terra as hastes que produziram e os extremos das folhas que se entrelaçavam, para que o sol pudesse penetrar.
Espinafre commum, Monstruoso de Viroflay. As sementes eram metidas em água durante 6 horas e ao fim de 6 dias já as plantas nasciam. Deixavam para semente as plantas mais perfeitas, tendo o cuidado, como umas só dão flôr macho e outras flôr femea, colher d’umas e d’outras para se poderem reproduzir
E os conselhos continuavam:
Barba de Capuchinho: Em Abril semeavam Chicorea Selvagem ou Almeirão. Em Junho/Julho cortavam algumas folhas para consumo. Em Outubro/ Novembro arrancavam algumas raízes e depois de supprimir todas as folhas à altura de 1 cm, no collo da raiz, atal-as-iam em pequenos molhos tendo o cuidado de deixar ao mesmo nível o collo da raiz. Depois collocavam n’uma loja sem luz sobre uma camada de 30 cm de excremento de cavallo. As molhadas eram ahi dispostas verticalmente encostadas umas ás outras e mettidas no estrume até aproximadamente um terço da sua altura. Regavam 2 vezes ao dia até as folhas começarem a rebentar e baixando depois a frequencia das regas para as folhas não apodrecerem. Ao fim de 15 a 20 dias as folhas tornavam-se muito compridas, de côr branca amarellada e estariam promptas para consumo, chamando-se barba de capuchinho e fazendo uma belíssima salada.

Os Espinafres da Nova Zelândia têem as folhas sumarentas, ramificações tenras, sabor fino e agradável, dão esparregados de primeira ordem. E para sôpas, misturados com grão ou feijão?!... Uma delícia. Semeados em terra bem estrumada e sempre fresca, é chegar aqui e todos os dias colher um braçado d’elles como quem vae de caminho. E depois, não precisam de mais tratamento. As próprias sementes cahindo na terra, os reproduzem. Não são muito conhecidos; mas verás… quem uma vez os provar, fica freguez. Para os animar, dá-lhes de vez em quando uma réga com o líquido da barrica.

As Chayotas ou chuchus, colhidas um pouco verdes, cozidas em água e sal e comidas com molho branco… são de ressuscitar um morto!

E esta precciosidade: Pegou na alface, lavou-a, sacudiu-a com força, e rasgou-lhe as folhas transversalmente à mão. Depois deitou-a na saladeira. Depennou os cheiros e espalhou-os por cima: quebrou com os dedos o cebolinho em pedacitos de três centímetros, cortando-lhe a raiz. aproveitando-o até aos dois terços da sua altura e lançando fora essa parte superior. Deitou n’uma colher um pouco de sal fino que derreteu, enchendo a colher até ás bordas de vinagre forte que logo despejou, espalhando-o sobre a salada. Encheu a mesma colher duas vezes com um azeite que parecia oiro líquido e que do mesmo modo espalhou sobre o pitéu. Cortou uma codita de pão, atirou com ella para a saladeira e depois… toca a mexer. Voltas e mais voltas. O verde da alface tornava-se lustroso como o azeite; o cebolinho e os cheiros agarravam-se às folhas; e por toda a casa era um perfume!... “Hás-de esperar até que a côdea do pão esteja bem ensopada de azeite e vinagre!” respondeu o Tio Salomão ”Esse é o signal de que a salada está mexida como deve ser”. Finalmente elle retirou a côdea, examinou-a cuidadosamente, comeu-a e serviu uma pratada a transbordar do appetitoso pitéu
No final os ensinamentos mais complicados:
Preparar Calda Bordaleza: 88 litros de água, 6 kilos de cal e 6 kilos de sulfato de cobre
Preparação de adubo químico: Em 100 litros de água, misturar 30 grammas de phosphato de ammoniaco, 45 grammas de nitrato de potassa, 15 grammas de nitrato de soda, 10 grammas de sulfato de ammoniaco. Oito dias depois as plantas regadas com este adubo differençavam das outras. E, depois de meia dúzia de regas apresentavam um tal vigor que todos estavam extasiados. E o Tio Salomão explicou às creanças: As plantas precisam de azoto, ácido phosphórico, potassa e cal. Os nossos terrenos são ricos em cal. No phosphato de ammoniaco há o azoto e o phosphoro; no nitrato de potassa há o azoto e a potassa; no nitrato de soda há o azoto e no sulfato de ammoniaco há o azoto e também o enxofre que as couves apreciam muito. Os estrumes tornam a terra mais tempo fértil e permeável ao ar, penetrando a água também melhor. Os adubos actuam mais depressa e o efeito é menos duradouro e a terra não fica tão porosa, tão leve.
Construção de estufins: caixas sem fundo com 4 m de comprimento por 1,33 de largura. A sua altura do lado elevado era de 33 cm e do lado mais baixo 26, cobertas de vidraças de caixilhos de ferro ou de madeira. As vidraças podiam levantar-se ou abaixar-se por meio de duas hastes dentadas, de madeira, collocadas verticalmentre entre a borda superior da caixa e o caixilho.
Faziam uma ruma (pilha) de estrume de 65 ou 70 cm de altura, 1,93 de largura e 4,60 de comprimento. O estrume devia ser fresco e era calcado com os pés de modo a ficar comprimido. Depois regava-se cuidadosamente para ficar todo humedecido e sem deixar a água correr para fora. Feito isto, lançavam sobre o estrume uma camada de terriço da espessura de 18 a 20 cm e cobriam com o estufim. O estrume fermentava e principiava a aquecer. Este calor comunicava-se aos 18 ou 20 cm de terra que o cobriam e ao ar do interior do estufim. Faziam as sementeiras directamente na terra ou, melhor ainda, em vasos que enterravam até dois terços de sua altura n’essa terra e que depois transplantavam para a horta sem que as plantas soffressem da transplantação
A ruma devia ter mais 60 cm de largo e de comprido do que o estufim, ficando descoberta em volta n’uma faixa de 30 cm que serve para fazer o rescaldo. O rescaldo faz-se com uma camada de estrume fresco, que se colloca no espaço livre em volta do estufim até à altura da vidraça; e tem por fim prolongar a temperatura alta, mais tempo, no interior deste. Esta duração mais prolongada da temperatura pode também obter-se por meio de uma espessura maior da cama. Quando o tempo o permittir, como as plantas precisam do renovamento do ar, levanta-se de dia um pouco as vidraças dos estufins. Também são necessárias esteiras que servem para proteger as plantas contra a geada, fazendo com ellas além d’isso uma espécie de toldos ou abrigos sobre os estufins, agasalhando-os contra o frio. Para attenuar os raios de sol no tempo em que são muito fortes, branqueavam os vidros com cal.
A este processo dos estufins chamavam cultura em cama. E distinguiam as camas quentes, tépidas e frias.
Camas quentes eram preparadas com estrume de cavallo, ovelha, etc. Nos primeios dias, depois de armadas, a temperatura elevava-se até 70º descendo depois de 20 a 30º que se conservavam durante 40 a 50 dias. Correspondia ao Verão
Camas tépidas eram feitas com estrumes animaes, folhas, detrictos vegetaes susceptíveis de fermentação ou misturas de estrume de cavallo com estrume já fermentado Forneciam uma temperatura média entre os 12 e 20º durando por 60 a 70 dias Correspondia à Primavera.
As camas frias ou mortas eram construídas ao nível do solo, com materiaes mais ou menos esgotados e cobertas também pelos estufins. Correspondia ao Inverno mas sem geada .
Além dos estufins era preciso comprar redomas de vidro transparentes e de um tom ligeiramente esverdeado, em forma de sino, terminando superiormente por um botão ou pegadeira e tendo na base um diâmetro de 40 cm, para proteger das geadas e dos frios as novas plantas no campo.
No final do livro Thomé tinha 15 irmãos. A família vivia mais desafogada graças às poupanças que conseguiam fazer com a venda dos productos da horta. Os irmãos compraram a propriedade que tinham alugado, augmentaram a casa e adquiriram mais água e terras de horta. Tinham construído uma correnteza de estufas onde faziam a cultura forçada dos primôres. O Thomé continuava a estudar botânica sózinho e era tão intelligente que fazia ensaios com as culturas novas conseguindo reproduzir batatas por semente, obtendo uma variedade que fôra premiada com medalha de oiro na exposição hortícola à qual deu o nome de Batata Salomão em homenagem ao seu mestre.

Ahinda que com algumas reservas em relação a certas practicas e ensinamentos, digam lá se não é um immenso prazer para os sentidos?

2008-09-13

Pondo a conversa em dia

Depois de termos passado um Verão quase sem virmos actualizar o blogue, hoje, a minutos de partirmos para umas curtas férias, passámos por aqui para darmos uma ideia muito pálida do que foram estes últimos meses.

Apanhar os tremoceiros:



Pô-los a secar

.. e depois malhá-los (não temos fotos).

Cortar e armazenar a flor das alfazemas:


Apanhar fruta e fazer réstias com as cebolas:
Nesta foto também se vê a batata coberta com folhas de eucalipto para a proteger da traça. Preferimos este procedimento que nos tem dado bons resultados, em vez de a polvilharmos com produtos químicos para o mesmo efeito

Acompanhar o nascimento dos pintos na chocadeira:


Distribuir uma série de armadilhas para moscas feitas com garrafões com água de demolhar e de cozer o bacalhau, servindo também qualquer outra água com cheiro forte a peixe ou carne:
Consegue-se ver a quantidade enorme de moscas capturadas e afogadas no líquido.

Construir finalmente um pequeno lago para satisfação dos gansos:


Fazer a cresta do mel:


Desopercular - que é cortar as tampinhas dos favos com uma faca para o mel poder sair na centrifugação:


Centrifugar:
Não fiquem preocupados porque não fizemos exploração infantil. Os garotos estão apenas a aprender como trabalhar o mel :))

Aqui vê-se o interior do centrifugador e o mel a juntar-se no fundo:


Filtrar:


Meter as ceras cortadas numa prensa para serem espremidas e aproveitar assim mais um pouco de mel.

Depois teve que se filtrar também este mel

Tivemos que inventar uma série de engenhos para afugentar os corvos que estavam a deixar as maçarocas do milho neste estado:


E começou-se por pendurar garrafas de plásticos e Cd's inutilizados para faiscarem com o sol:


Mas também ligar vários aparelhos de rádio em postos diferentes e ligados a temporizadores, para os assustar com as vozes dos locutores :)) Esta técnica pareceu-nos a mais eficaz:




E não falámos do malhar das flores de girassol, nem da desfolhada, nem dos almoços e jantares que fizemos aqui com os nossos amigos, nem do desgosto pela morte da nossa pavoa apanhada por uma raposa... e tantas coisas que ficaram aqui por dizer e por mostrar

Como sempre as imensas alegrias e alguns desgostos que esta quinta nos tem oferecido.

Mas agora vamos descansar uns dias. Bem merecemos
Até breve

2008-09-02

Se é sensível... não leia

No mês de Agosto gostamos de fazer várias festas (entenda-se por festa a apresentação na mesa da maior variedade possível de confecções culinárias utilizando o mesmo ingrediente) como a do pepino (que este ano ficou todo queimado do sol), a do feijão verde, a da maçã (que este ano foi quase inexistente), da melancia (que nem sabemos o que fazer com tanta quantidade) e outras.
Acontece que o trabalho foi tanto e as pessoas que nos visitaram este ano também foram tantas que nem tivemos tempo para andar na recolha de novas receitas. Mas ainda fizemos algumas experiências culinárias que em breve partilharemos convosco.

Como há uma série de tempo que não publicamos nada de novo, resolvemos contar por imagens, a mais recente intervenção cirúrgica.

Um dos nossos jovens carecas (ou pelados como se diz aqui na zona) surgiu de manhã com este aspecto horrível. Tinha o papo aberto vendo-se a comida no seu interior e que ia deixando cair, ao caminhar. Não conseguimos perceber o que teria motivado um rasgão tão profundo mas talvez tivesse sido atacado por uma ratazana durante a noite.

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O caseiro viu o caso tão mal parado que pegou nele para lhe torcer o pescoço e pôr fim àquele sofrimento. Ao avaliar o seu peso, comentou connosco que o galito estava tão magrote que nem sequer dava para fazer uma boa canja.

E foi aí que nos ocorreu mais uma vez aquela velha frase “De médico e de louco, todos temos um pouco” e correndo o risco de nos acusarem do crime de alveitar, decidimo-nos pela cirurgia.

Improvisámos uma mesa de trabalho, munimo-nos de água oxigenada, betadine, terramicina em spray, e… de agulha e linha, claro.

Primeiro era preciso coser o papo propriamente dito

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... e depois a pele exterior

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Por fim aqui vemos o galito que se portou como um valente mas ainda um pouco combalido uma vez que não houve anestesia nem geral, nem local


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No dia seguinte já estava com este aspecto e bem esperto a olhar para o repórter, enquanto o Nuno, escolhido de entre os outros meninos por ter movimentos muito calmos, lhe tornava a pôr mais terramicina para não haver problemas de infecção


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E agora corre feliz da vida na brincadeira com os outros galináceos… adiando-se a tal prometida canja.

2008-07-31

A festa dos sabores

Este ano semeámos uma qualidade diferente de feijão-verde. É aquele feijão de vagem redonda que vemos em certas misturas de legumes congelados. Não esperavamos que essas vagens crescessem tanto, mais de meio-metro de comprido, dando grande satisfação no momento da colheita. O paladar também é diferente do nosso feijão verde, tendo um gosto mais suave.

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Fizemos uma salada belíssima depois de o cozermos já cortado, juntando a rodelas de ovo cozido, tomate fresco e maduro, cebola às rodas, alho picadinho, enfeitado com azeitonas galegas, temperado de azeite e polvilhado com orégãos.

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Mais tarde resolvemos apresentar à mesa um prato de courgettes cruas e ainda repetir a experiência da fritura das flores de abóbora.

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As cougettes escolhidas devem ser das pequenas e macias. São apenas lavadas e depois cortadas às rodelas finas, quase transparentes e temperadas com azeite, sal, pimenta, raspa e sumo de limão. Há quem polvilhe com folhas picadas de mangericão, mas nem toda a gente aprecia este tipo de perfume na comida
Para quem não tem horta nem ninguém conhecido que a tenha, vai ser difícil obter as flores de abóbora uma vez que não é costume vendê-las no mercado.
Usam-se apenas as flores macho já que as fêmeas são as que dão origem a novas abóboras e não interessa prejudicar a produção. É fácil reconhecê-las porque as flores fêmea têm logo de início a aboborinha ligada a si..

Depois de lavadas, abrimo-las e retirámos o pistilo, o centro onde está o pólen e o néctar.

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Preparámos então o polme com farinha de trigo, um pouco de maizena, uma colherzinha de fermento, um salpico de sal fino, tudo desfeito com água gelada. Não ficou muito espesso, nem muito líquido, apenas o suficiente para pintar de branco a ponta dos dedos.
Depois de bem molhadas neste polme, metemo-las, uma a uma na fritadeira eléctrica a 160º apenas a dourarem. Desta vez ficaram bem durinhas e crocantes.

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Um prazer para a vista e para o paladar.
Bom proveito!

2008-07-12

Visitando alfarrabistas

É sempre no Verão que nos afastamos mais da escrita e das visitas aos blogs que achamos mais interessantes.
É altura de levantar a batata, cebola e alhos da terra, de regar e sachar as hortas, colher feijão verde, courgettes, funcho, pepinos, aipo, rabanetes, alface, rucola, ameixas, nêsperas, morangos, maçãs (antes da devastação dos corvos e melros), fazer a rega com aspersores ao milharal, cortar a relva quase semanalmente para mantermos o jardim com melhor aspecto, fazer a segunda poda das alfazemas, regar e adubar os canteiros, cortar as flores secas para assim estimular a produção de muitas mais, tratar dos nossos animais, acompanhar os nascimentos na chocadeira, continuar o ensino aos cães mais jovens e muitas mais tarefas que agora nem nos ocorre. Além disso acompanhar familiares e amigos que aproveitam este período para nos visitar, ficando connosco por períodos mais ou menos longos o que nem sempre significa ter mais braços para ajudar :)))
Mas por vezes conseguimos libertar-nos das tarefas para nos afastar, assistir a alguns espectáculos, visitar alguns amigos, fazer alguns passeios…

Há duas semanas atrás fomos passar dois dias em Lisboa e aproveitámos para dar uma espreitadela nos alfarrabistas da Rua da Misericórdia.
Temos este gosto estranho de gostar do toque e do cheiro dos livros antigos.
Procurávamos livros da antiga Biblioteca dos Rapazes e Biblioteca das Raparigas para aumentar a nossa biblioteca que faz as delícias dos mais jovens que permanecem connosco nas férias escolares.
Havia poucos livros juvenis mas houve um que ao abrir nos deixou de imediato decididos a adquiri-lo. Chamava-se “as férias” e escrito pela condessa de Ségur, que tinha o nome de Sophie Feodorovna Rostopchine, nascida na Rússia em 1799 e tendo acompanhado seus pais no exílio para Paris onde viria a casar-se com o Conde Eugene Ségur. Começou a escrever aos 58 anos.


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Mas o que nos fez comprar este livro, foi o facto de ter o nome manuscrito da sua proprietária assim como o ano da posse.


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Não sabemos explicar o que nos encanta, de modo a não conseguirmos resistir a este tipo de “marcas”
Outra das aquisições foi um livro mais antigo chamado “ Manual do Jardineiro”

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e desta vez a compulsão foi por termos encontrado um montinho de pequenos recortes que o anterior dono/a do livro foi pacientemente coleccionando e guardando entre as suas páginas.

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Acreditem que sentimos um prazer imenso em manusear estes livros, ler lentamente cada recorte, ficar a admirar os sublinhados feitos a lápis no próprio livro. E principalmente, sentir que os adoptámos, desprezados por alguém que se decidiu pela sua venda por não encontrar neles qualquer interesse que justificasse a sua posse.
E por esta ou aquela razão acabámos por vir com um saco de 8 livros antigos. Agora só é preciso arranjar tempo para podermo-nos deleitar com uma leitura relacionada com costumes e práticas já esquecidas ou abandonadas por nós.
Talvez no Inverno sentados em frente da lareira durante as noites longas e frias.

2008-06-16

Dixieland em Cantanhede

No passado fim de semana, entre 12 e 15 de Junho, decorreu o V Festival Internacional de Dixieland em Cantanhede.
Faltámos o ano passado e este ano fizemos todos os esforços para não acontecer o mesmo.
Desde quinta feira que Cantanhede vibrava com esta música electrizante, tendo as bandas dixie e também as filarmónicas do concelho a tocar na rua durante o dia todo. À noite tocavam no palco de um recinto fechado no Parque Expo-Desportivo de S. Mateus, onde também decorria a Feira Gastronómica e de Artesanato.
O programa era tentador:
Bandas dixie portuguesas: Astedixie; Castiço Jazz Band; Desbundixie Jazz Band; Dixie Boys; Funfarra
Bandas dixie espanholas: Always Drinking Marching Band (com a participação da Maria João); Remember Swing,
Bandas dixie alemãs: Dixieman Four
Bandas dixie holandesas: Dixieland Crackerjacks; The Juggets Jazz Band
Bandas dixie italianas: Tiger Dixie Band
Bandas Filarmónicas: Ançanense, dos Covões, da Pocariça

Conseguimos viajar no sábado á noite mas não chegámos a tempo de ver os Dixie Boys , cujo trabalho pretendíamos conhecer.
Ouvimos a Remember Swing que é um projecto musical do trompetista argentino Marcelo Gallo, musico multi-facetado, que vive em Espanha, sendo o responsável por uma série de arranjos de forma a alterar a sonoridade de alguns temas clássicos. Foi um momento muito agradável

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A conhecida banda Dixieland Crackerjacks apareceu a tocar no meio do público, no seu jeito festivo como faz nas ruas, exibindo os seus vistosos fatos. Subiram depois ao palco e conseguiram electrizar o público que sem se dar conta começou a marcar o ritmo com o corpo, alguns levantando-se para dançar por entre as mesas e cadeiras.

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No final, a grande apoteose quando todas as bandas participantes neste festival surgiram a tocar temas muito populares, juntando-se aos Crackerjacks ainda em palco e levando o público a rodeá-los, cantando e dançando, totalmente cativado.
Eram 2,30 horas quando saímos e a festa ainda continuava…
No domingo foi o encerramento do Festival com espectáculos de rua desde as 10 da manhã havendo depois do almoço a chamada Street Parade.
Não pudemos ir e por isso deixamos aqui um vídeo que encontrámos no Youtube que é uma gravação feita no ano passado.
Fica então aqui um pouco do cheirinho a festa


2008-06-02

Maio, o mês das trovoadas

Há algum tempo que andamos a pensar em escrever um pequeno texto sobre as trovoadas. Esperámos que elas ocorressem para tornar o trabalho mais oportuno mas fomos desconsiderados pois nem uma se fez ouvir durante o mês que agora terminou. Por isso resolvemos publicar mesmo assim.
As nossas mães, ambas oriundas de zonas rurais ricas em mitos que eram aceites como verdades científicas, tinham pavor às trovoadas. Crescemos a ouvir relatos tão assustadores que acabavam por provocar o riso porque vivendo próximo das grandes cidades, atulhadas de pára-raios, o nosso conhecimento sobre as trovoadas limitava-se à visualização dos relâmpagos e à audição dos trovões e sem nada de relevante acontecer às pessoas a não ser alguns pequenos problemas nos electrodomésticos.
Quando viemos para esta quinta, as coisas mudaram um pouco de figura. Sendo uma zona com muito minério, segundo alguns entendidos, altamente arborizada e sem pára-raios, as trovoadas estacionam sobre nós durante muitas horas e algumas vezes regressando vários dias seguidos.
Há uns anos estava eu num campo aberto perto da casa com uma tesoura na mão a cortar flores para enfeitar a cozinha. Ouvia-se um trovejar ligeiro e continuei o meu trabalho completamente despreocupada, uma vez que estava uma tarde de sol.
Mas a dada altura, enquanto escolhia as flores, ouvi um zumbido sobre mim e senti os cabelos e os pêlos dos braços a erguerem-se puxados por uma força repentina e estranhíssima dando uma sensação esquisita à pele. Ao erguer os olhos vi a imponência de um raio que ziguezagueando indeciso sobre mim resolveu no último segundo trocar-me por um poste de alta tensão que se encontrava a uns 100 metros e ao qual se abraçou num gemido alto, contorcendo-se num paroxismo orgástico.
Escusado será dizer que fiquei completamente aterrorizada ao aperceber-me do que me poderia ter acontecido caso não houvesse aquele poste felizmente muito mais sedutor que eu.
A partir daí começámos obviamente a ter muito mais respeito às trovoadas. Encontrámos na Net uma explicação que considerámos interessantíssima:
Algumas nuvens conseguem gerar poderosas cargas eléctricas. No topo da nuvem forma-se uma carga positiva e na base da mesma uma carga negativa que vai dar origem ao raio. No início desta formação há uma descarga piloto que partindo da nuvem desce em ziguezague até ao chão a uma velocidade de 100 Km/seg, ionizando um mini túnel que abre no seu trajecto, tornando-o um bom condutor de electricidade e ligando assim o solo à nuvem. O solo envia a seguir um impulso positivo a uma velocidade próxima de um décimo da velocidade da luz, aproveitando o mesmo túnel com poucos milímetros de diâmetro aberto pela descarga piloto. O ar torna-se subitamente incandescente subindo a temperatura a cerca de 30.000ºC, criando uma onda de choque que dá origem ao estrondo do trovão.
Em algumas zonas do país era costume, durante a trovoada, as pessoas enrolarem-se em cobertores de papa. Estes cobertores eram fabricados de uma forma artesanal com fios de lã pura e por isso um bom isolante para as descargas eléctricas.
Ainda hoje se benzem raminhos de oliveira, alecrim, louro, no Domingo de Ramos que se queimam depois em dias de tempestade com o intuito de se afastar os raios.
Na zona onde vivemos também soubemos pelos mais antigos que era bom envolverem-se em mantas de cor vermelha, coisa que nos intrigou. Ao fazermos várias pesquisas descobrimos que nas festas dedicadas a Santa Bárbara, é costume os seus devotos vestirem-se de encarnado e branco, principalmente no Brasil. No entanto nas imagens que procurámos da santa, aparece vestida com estas duas cores mas também com outras muito diferentes.
Santa Bárbara é protectora contra as tempestades, trovões e raios (competindo com S. Jerónimo) e também protege aqueles que trabalham com fogo e explosões como os artilheiros, mineiros, pirotécnicos, metalúrgicos, e ainda padroeira dos arquitectos, pedreiros e outros.
Em dias de trovoada foi muitas vezes arrancada ao seu confortável altar e exposta na rua, à chuva, para a obrigar a agir e a terminar com a tempestade ao mesmo tempo que se repenicavam os sinos da igreja.
Os seus atributos são a torre, a espada, o cálice com a hóstia, o livro, a palma. Como é difícil fazer uma imagem que mostre a santa a carregar todos estes objectos, normalmente segura apenas dois à escolha.
Segundo reza a história, esta santa foi encerrada numa torre pelo pai, com o intuito de a deixar protegida durante uma viagem que este teve de fazer. Durante esse tempo ela decidiu tornar-se cristã o que enfureceu o seu progenitor quando regressou. Acabou por ser condenada à morte, acto desempenhado pelo seu pai. Quando a cabeça rolou por terra, um raio fulminou-o.
Segundo os mais idosos, é bom em dias de grande invernia e forte trovoada, fazer a seguinte reza para ficarmos protegidos pela santa:
“Santa Bárbara bendita, que no céu estais escrita, com papel e água benta, livrai-nos desta tormenta”
Mas, não vá a santa estar demasiadamente atarefada para nos atender, aqui ficam algumas normas de segurança que devemos respeitar:

Em casa:
Feche portas e janelas para evitar que os raios sigam as correntes de ar; desligue os electrodomésticos e a antena da televisão das tomadas; afaste-se das portas e janelas fechadas, assim como das chaminés; uma vez que as linhas telefónicas podem atrair os raios, use o telefone só em caso de emergência; evite tomar banho; não manipule nenhum condutor metálico (instalações de água, gás ou electricidade)


Fora de casa :
Abrigue-se em edifícios protegidos por pára-raios; não se aproxime de postes eléctricos ou telefónicos; não caminhe em campo aberto; não permaneça perto ou dentro de água; suspenda qualquer actividade desportiva; não mexa em estendais de arame, cercas, tendas, linhas telefónicas ou qualquer estrutura metálica assim como máquinas ou tractores que reboquem equipamentos metálicos; afaste-se do cume das montanhas antes do meio dia (a maioria das trovoadas ocorrem no princípio e no fim da tarde); evite andar de barco com trovoada, assim como a proximidade de praias, piscinas, lagoas; não se abrigue debaixo de árvores, nem se aproxime de troncos e raízes; se estiver num local isolado com um grupo de pessoas, devem dispersar para evitar atrair os raios e que a corrente eléctrica passe de uma pessoa para outra sem se tocarem; não ande de bicicleta ou de cavalo; se estiver num sítio isolado e sem possibilidade de se resguardar, ponha-se de cócoras com os pés bem juntos e não toque com as mãos no chão; não permaneça junto de rebanhos de ovelhas; não manipule materiais inflamáveis em recipientes abertos; não corra contra o vento, mas sempre a favor, para evitar a electrização do atrito; ao correr, evite colocar os dois pés ao mesmo tempo no chão; solte os animais presos a correntes ou arames e tire-lhes as coleiras de metal; não use chapéu de chuva cuja ponta metálica pode atrair o raio; se sentir a carga eléctrica que se caracteriza por eriçamento do cabelo e formigueiro na pele, atire-se para o chão; se estiver dentro do carro, feche as janelas e fique tranquilo pois está bem protegido. Saia só quando tiver a certeza que a tempestade passou completamente.
Em caso de acidente é necessário agir imediatamente tentando a reanimação com respiração boca-a-boca ou massagem cardíaca.
Como os batimentos cardíacos são estimulados por impulsos eléctricos de pequena intensidade, a descarga eléctrica de alta intensidade do raio pode provocar uma sobrecarga que leve à paragem cardíaca seguida de paragem respiratória, interrompendo a irrigação sanguínea do cérebro e levando a pessoa à morte.
Agindo rapidamente com as técnicas de reanimação referidas ou utilizando o desfibrilador, pode salvar-se uma vida.

2008-05-17

Saber ser velho

Em Março de 2007, escrevemos um pequeno texto fazendo referência à vida e obra de Carlos Mar Bettencourt Faria, cientista português assassinado em Angola em 4/7/76. A partir daí fomos recebendo alguns contactos de pessoas que também o conheceram e que gostavam de partilhar essas memórias. Um deles foi o Mário Portugal, seu irmão, que ainda hoje comunica connosco diariamente dando origem a uma bonita amizade.
O Mário é rádio amador veterano e escreve com frequência para a revista QSP-Revista de Rádio e Comunicações sobre os assuntos mais diversos e inesperados.
Os seus conhecimentos são vastíssimos e é difícil pôr-lhe alguma questão que fique sem resposta de imediato ou a curto-prazo.
É uma pessoa muito activa, alegre, solícita e sempre atenta às descobertas científicas que se fazem por esse mundo fora.
Tendo passado parte da sua juventude internado num sanatório do Caramulo com uma grave doença pulmonar de diagnóstico tão reservado que indiciava uma morte prematura, conseguiu impor-se à doença fazendo uma vida normal até hoje.
Também se interessa por medicina e é abordado bastas vezes por vizinhos e amigos para lhes aplicar uma dose de ondas curtas para alívio rápido nos problemas de artroses nas suas fases mais dolorosas.
É evidente que um espírito assim irrequieto na procura do saber e de novas tecnologias, não ia ficar indiferente às possibilidades da Internet.
Vivendo completamente só, por ser viúvo e ter os filhos distantes, passa o dia muitíssimo ocupado contactando amigos reais ou virtuais, fazendo pesquisas, escrevendo artigos técnicos e também narrando muitas das suas memórias no blog “Engenhocando”, merecendo o interesse de alguns sites brasileiros.
Há alguns dias escreveu um texto no seu blog com o título “Que bom chegar a velhinho” que publico aqui, com a devida autorização do autor, dedicando-o a todos os amigos candidatos a idosos, fase a que poderão chegar se tiverem sorte na vida:
"Provavelmente, o leitor que chegar a este blog, ficará um tanto atónito com a expressão escolhida para esta crónica, pensando provavelmente que a velhice deve ser uma grande chatice! Na realidade, se uma pessoa tiver levado uma vida sem nada para recordar, e se ainda por cima, não tiver já uma boa saúde, achará que a velhice, deve ser uma coisa muito chata, mas quando há muito para recordar e ainda interesse por viver, encontra muito de que falar... Na realidade, a velhice, quando cá se chega, como eu aos 81 anos, vem acompanhada de muitas surpresas, às vezes um tanto desagradáveis, certos abanos na saúde, a noção de que já faltam muitas coisas que se foram perdendo pelo caminho dos anos, mas enquanto se tem a noção de que numa longa vida, tem mesmo de existir muitos solavancos e nos temos de ir preparando para o passo final... pensa-se de forma diferente... Alguém me poderia perguntar: "Qual é a melhor hora de cada um dos seus dias?", e eu poderia responder que é o acordar e uma pessoa sentir que ainda está viva e lúcida. Depois dum cigarrinho para ajudar a acordar completamente, dada a preocupação de não deixar cair nenhum morrão sobre a roupa, segue-se o ir fazer o pequeno almoço de sopas de café com leite, e vir comê-lo para a cama e logo seguido de outro cigarrinho... Muito confortavelmente instalado, agarra-se uma boa leitura por mais uma hora e se pára. Segue-se um período vazio de olhar o tecto branco e tudo o que nos rodeia, e no silêncio total da falta de companhia, ficar a pensar no que se poderá fazer de agradável, para encher as horas do dia que acabou de nascer. Como o leitor deste blog já teve várias vezes a oportunidade de ler, eu sempre me lembro de que tenho tido muitas ocupações diferentes e, se for alguma em que possa aprender qualquer coisa, ainda melhor. Eu costumo pensar que as únicas coisas que me crescem actualmente, são as unhas e o cabelo... o resto já se foi andando e desaparecendo, mas como tudo se vai lentamente, nem dá muito para se ficar preocupado, mas simplesmente com certa pena. Vão-se os dentes, o ouvido e a vista, com baixa imenso de sensibilidade, as pernas começam a ficar perras e em vez de se andar, damos que estamos mais a arrastar os pés e a tropeçar ao mais pequeno descuido, e se fica com a saudade do interesse sexual que tanto abundava uns anos antes, e se extingue. Se se envereda pela INTERNET, os amigos que se vão juntando e fazendo companhia diariamente, são um enorme aliciante, pois cada um nos vai dando noticias do que está a fazer ou a pensar fazer, os que necessitam dos nossos conhecimentos adquiridos durante tantos anos, e nos enviam imagens lindas de ver, de todos os tipos, de terras distantes e lindas de ver e conhecer, do aparecimento de instrumentos que todos os dias se estão a inventar e mulheres, lindas mulheres, daquelas que tem TUDO o que qualquer homem gosta de ver... enquanto os seus olhos ainda conseguem enxergar alguma coisa! Mas eu nasci com uma necessidade imensa de conversar com toda a gente, mais novos e mais velhos, ricos e pobres. Por esse motivo, em 1948, quando me apercebi de que a morte só me tinha passado ao perto, logo me entusiasmei pelas actividades radioamadoristicas que me abriam imensas portas científicas, e a ANACOM me forneceu o indicativo de CT1DT, que ainda hoje possuo e uso. Assim, e embora ainda num sanatório, me fiz radio-amador e de lá das altas montanhas do Caramulo, consegui encontrar imensa gente da minha idade, 17 anos, e muitos, quase todos, mais velhos. E, como os anos iam andando e eu a ver imensos amigos a morrer, ricos e pobres, mas em especial os bem comidos e bem bebidos, lembrei-me de fazer uma lista dos que se tinham ido, a que chamei de "Triste Lista", onde já inscrevi 375... Assim hoje, eu sou, dos poucos velhos amantes da rádio, que ainda existem em Portugal! E lá se vão encontrando aqueles velhos amigos de há mais de 60 anos, que também se meteram com a NET, e com quem estamos de conversa, horas e horas, recordando os tempos passados... as aventuras que tivemos, as empolgantes experiências de todos os tipos, os sustos e os fracassos que apanhámos e as alegrias que nos encheram a vida, as mulheres que nos acompanharam e que algumas vimos morrer nos nossos braços... E mais, a vermo-nos uns aos outros... via MSN em televisão. É uma pena que muitas pessoas que chegaram à idade avançada, não tenham a coragem de se meter na NET, pois ficam sem quase nada para fazer, todo o dia, só esperando pela hora da alimentação, um passeiozinho pela rua, umas horas a ver televisão, e umas sonecas à mistura... Felizmente que, e desde há muitos anos, me enviam mensalmente pedidos de mais artigos para publicar e isso me ajuda a estar sempre de atalaia, para encontrar os assuntos sobre o que escrever e juntar fotografias e esquemas, que, muitas vezes, têm de ser feitas sem perda de tempo, para quando chegarem os pedidos, já ter alguma coisa pronta a seguir. Entretanto já tenho publicadas, cerca de 1000 páginas de assuntos técnicos, e por isso, muito diferentes destes que aqui escrevo. Eu devo ser considerado um tipo muito especial, talvez "maluco", dado que, se se for à NET e lá escrever ct1dt, em QRZ.COM, vai ver que lá está a minha fotografia de há poucos anos e a indicação de quase 2000 visitas ao meu indicativo...e fico a pensar no porquê ...quando a maioria, anda pelas 200 ou 300 visitas... Quase todos os dias nos entram pelo casa dentro, no computador, anúncios das mais rocambolescas coisas, desde as comidas que fazem bem a tudo, as anedotas, aos comprimidos de Viagra que já não nos serviriam para nada, há de tudo! Mas uma coisa é certa, desde há muitos anos, que me habituei a uma alimentação muito simples, como um prato de sopa de legumes e massa, um ovo estrelado ou em omeleta, um fruto, meio pãozinho, um pouco de queijo de barrar, e um copinho de sumo de laranja, é quanto basta, pois as sopas de café com leite da manhã e do lanche, bem docinhas, fazem o resto. Perde-se a vontade de andar a medir a tensão arterial e de andar sempre nos consultórios, quando já se sabe que as análises que foram feitas anualmente, se mantêm estáveis. Então, para quê ir fazer mais? Claro que há muita gente que necessita de vigiar as diabetes, se as tem, mas quando se fez uma vida muito cuidadosa, regrada e simples na alimentação, não fica nada por onde se ter de cortar. Aprendemos que mais cedo ou mais tarde, todas as comidas muito condimentadas, acabam por vir a fazer mal. Então eu as eliminei... pura e simplesmente! Nada de fritos, nem refogados, nem gelados, desde que vim a saber que eram feitos de manteiga e leite... e andar a comer "manteiga" à colher, é mesmo um suicídio...Uma coisa aprendemos, é que os dentes postiços nunca mais funcionam como os de origem, e nunca mais se consegue trincar como dantes. Se os dentes não conseguem desfazer uma carne um tanto rija, mais vale ir metê-la no triturador, 1,2,3, e comê-la logo moída, em vez de exigir que um estômago com mais de 80 anos, o consiga fazer convenientemente, à custa do seu corrosivo ácido clorídrico. Ou então, pura e simplesmente, eliminá-la da dieta. Por quê teimar em comidas que se digeriam bem aos 20 e aos 30 anos, mas que agora são um sacrifício tremendo para o estômago as digerir? Quando se vive completamente só, fica-se muito restringido na alimentação, a coisas muito simples, e estar o mínimo de tempo na cozinha, nem que seja por preguicite aguda... Mas uma coisa que parece tão simples de fazer para toda a gente, como partir um ovo para estrelar... até isso fica complicado, pois a maioria das vezes rebenta a gema e aquilo fica uma autêntica chachada!! Eu não me sinto como pessoa desajeitada, até porque me consigo entender dentro dum relógio de pulso e com os seus micro-parafusos, as micro-rodas dentadas, mas fico mesmo chateado quando, ao pretender fazer um bonito ovo estrelado, acabo por vê-lo rebentado na frigideira, embora se possa comer aquela mistela... Ná, aquilo tem de ter a sua técnica, pois uma coisa é partir um ovo para mexer ou fazer uma omeleta, e outra, fazer um estrelado... é muito diferente e eu tinha de aprender... Assim, peguei um, coloquei-o numa balança e com o gume duma faca, fui fazendo força, lentamente, e medindo a força.Verifiquei que a casca estalava aos 3,5 Kg, mas só ia dentro, aos 4 Kg... e sem rebentar com a gema... Bem, pensei eu, então o que tenho de fazer é várias pancadinhas à sua volta para facilitar que se abra, e assim lá me tenho safado... e podido comer, regalado, e molhado com bocadinhos de pão, a sua saborosa gema e a clara, levemente tostada à volta. Mas como é óbvio, vão-se fazendo disparates, quase todos os dias, e ainda hoje, fui fazer o café e me esqueci do próprio café! Só tinha água quente!!! Noutra vez, foi ao contrário, coloquei o café e esqueci-me da água, que teimava em não subir... e ia acabando com a maquineta, que quase se ia derretendo !!! e café... nada ! Ou ir fazer duas ou três compras e chegar ao super-mercado e já não saber o que ia comprar e outras, encontro as coisas e me esqueci do dinheiro... O que me vale, é que todo o mundo me conhece e vai perdoando, mas nem que seja um euro, eu tenho de o ir lá levar. Não posso ficar a dever um tostão a ninguém... fico mesmo doente... Ou sair de casa com braguilha aberta... ou com os botões da camisa, trocados... Ou andar pela casa à procura duma coisa que já nem sei o que era... tendo de voltar atrás... As coisas de casa, como limpar e arrumar, é que me custa um pouco mais, em especial o ter de fazer a cama, dificilmente sabendo o lado da cabeça e o dos pés... ou se está direito ou do avesso... E passar a ferro uma data de roupa... O leitor poderia perguntar: e porque é que não vai comer fora? Porque me custa muito o tempo de espera pela comida, pensando no que poderia estar a fazer em casa, com os meus brinquedos, responder ao correio electrónico, escrever um artiguinho como este, ou preparar um outro para publicação... E viva a velhice !!!! que é linda de viver ... e deixa-me ir embora, senão nunca mais acabo... e me ponho a contar como dei dois valentes trambolhões esta semana e de cabeça no chão... e como consegui acabar com umas dores de cabeça que não me deixavam dormir... talvez devido aos trambolhões, mas isso daria para outro artigo..."

2008-04-29

Bolo-Rei é quando a gente quiser

Já andava há uns dias com desejos de comer um bocado de bolo-rei. Mas nesta altura do ano é difícil de se encontrar.
Os desejos eram tantos que me atrevi a tentar fazer um bolo-rei, logo de manhãzinha, seguindo uma receita da minha mãe.
Como não tinha fermento de padeiro não pude fazer o preparado que consiste em amassar bem 100 gr de farinha com 60 gr de fermento de padeiro e juntar 1 dl de leite amornado. Depois fazer uma bola e deixar levedar.

Por isso comecei mais adiante juntando 800 gr de farinha com 225 de margarina, 225 de açúcar, a raspa da casca de uma laranja e comecei a amassar com firmeza. Seria a altura de juntar a tal bola feita com farinha, fermento e leite, mas como não a pude fazer, juntei o conteúdo de um pacotinho de fermento instantâneo. À falta de Brandy juntei um cálice de Porto e 6 ovos um a um.


Amassei com muita energia a massa, batendo-a vivamente sobre a mesa e cortando-a com as mãos até a sentir fofa, envolvendo-a de vez em quando com um pouco de farinha polvilhada na superfície.
Depois juntei á massa as frutas cristalizadas partidas aos bocadinhos, nozes e pinhões. Faltaram-me as passas


Amassei tudo muito bem, formei uma bola que pus a levedar dentro de um alguidar coberto com um pano num ambiente aquecido.



Esperei mais de 2 horas e não levedou quase nada. Quer dizer que ficou mais ou menos do mesmo tamanho o que me deixou muitas dúvidas sobre a eficácia do fermento instântaneo.
Despejei a massa na mesa e moldei o bolo rei. Fiz dois porque a massa era mais que suficiente e ficaram mais duas horas a levedar.
Como já estava a desconfiar, também não cresceram.
Pincelei com gema de ovo e comecei a decorá-los com frutas cristalizadas, mais as nozes e pinhões, pondo também 4 montinhos de açúcar branco para ficar mais bonito e foram a cozer no forno com temperatura média por 25 minutos.



Depois de estarem cozidos pincelei-os com mel sobre as frutas para lhes dar brilho, uma vez que não tinha geleia e o resultado final foi este:



Assim meio aldrabado, não estava tão fofo como é costume mas estava uma delícia e valeu bem a pena ter esperado tanto tempo até à fase final.

Acompanhado com chá de framboesa serviu para um belíssimo lanche numa destas tardes frias e chuvosas de Abril.

2008-04-12

O círculo dos cogumelos

Para iniciar este post começamos por afirmar que temos horror ao consumo de cogumelos apanhados por pessoas que se dizem experientes na matéria.
Limitamo-nos a comprar Cogumelos de Paris, frescos, em estabelecimentos que nos inspirem confiança, ainda que o pessoal que aqui trabalha apanhe sacos de míscaros que levam para casa com a condição de não os dizimarem completamente.
Há alguns anos fomos almoçar a um restaurante que tinha como um dos pratos do dia, arroz de míscaros. Resolvi esquecer o terror dos cogumelos e como nunca tinha provado míscaros, confiei na casa e pedi um prato para mim que realmente estava uma delícia, já não sei se dos míscaros ou se das carnes.
No final ficámos a conversar um pouco com um dos donos que já conhecemos há muitos anos e perguntei onde é que eles se iam abastecer de míscaros. Fiquei apavorada quando o ouvi dizer que compravam a umas senhoras que apanhavam pelos pinhais e que os iam entregar em cestos logo pela manhã. Só me restava esperar que não tivesse havido erro nenhum na colheita e que essas senhoras percebessem muito mais de míscaros do que eu, o que felizmente aconteceu.
Lembrámo-nos de escrever sobre cogumelos porque temos andado intrigados com um tipo de cogumelos pequenos e brancos, parecidos com os de Paris, que se dispõem ao longo de uma linha circular.
A foto abaixo foi a possível. Mostra o início da formação de um desses círculos que são sempre destruídos com a passagem continua dos animais.

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Depois de várias leituras ficámos a saber o seguinte:
O cogumelo é apenas a parte visível de um fungo. É o seu corpo de frutificação que pode soltar milhões e milhões de esporos por dia. Por sua vez o fungo desenvolve-se subterraneamente, constituído por finas ramificações denominadas hifas, a cujo conjunto se dá o nome de micélio e cuja função é a de conseguir os nutrientes necessários. Alastra-se circularmente a partir de um ponto no centro, aumentando o diâmetro do círculo de ano para ano, se as condições foram satisfatórias, podendo ir de poucos centímetros até dezenas de metros.
Mais tarde encontrámos uma foto na Net que dá uma óptima ideia de como o fungo se pode alastrar se não encontrar nenhum elemento que prejudique a sua expansão.

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Estava assim explicada a razão dos círculos destes cogumelos que aparecem frequentemente nas nossas zonas de pastagem.
Estas formações fazem no entanto parte da mitologia celta e também do imaginário colectivo duma série de países da Europa, mais acentuado nos países escandinavos. São os chamados Anéis das Fadas ou Rodas das Bruxas.
Estes círculos seriam visitados por uma série de figuras maravilhosas pertencentes ao mundo das florestas: fadas, bruxas, elfos, duendes, etc. que se reuniriam e dançariam em noites de lua cheia. É interessante ler as mil e uma orientações publicadas na Net sobre este assunto.
Sendo um mundo estranho e invisível para o homem, este também poderá assistir ao espectáculo se der 9 voltas ao circulo no sentido dos ponteiros do relógio. Deve vestir uma roupa leve e esvoaçante se tiver intenções de participar destes encontros mágicos. Ficámos a saber que se fizer um pedido junto ao anel das fadas, tem-se a garantia de vir a ser satisfeito. Deve ter-se o cuidado de nunca urinar para dentro do círculo o que provocará uma doença venérea grave. Ficámos a saber também que tipo de comida ou guloseimas são do agrado destes seres. Deve evitar-se pôr os dois pés dentro do círculo porque poder-se-á entrar no mundo das fadas e sem hipótese de regresso… a não ser que alguém tenha assistido ao acontecimento e que após 7 anos, do nosso tempo real, para 1 dia do tempo mágico, se coloque junto a um desses círculos numa noite de lua cheia e esperar pela dança para poder depois puxar com toda a força a pessoa perdida, não colocando obviamente os seus 2 pés dentro do anel.
Por curiosidade andámos a ler diversos contos tradicionais portugueses num livro de Consiglieri Pedroso que compilou uma série de contos junto de uma população muito diversificada que repetia lendas e contos ouvidos pela boca dos seus antepassados, quando a oralidade era o meio usado para a difusão de informações. O livro foi editado em 1910 apoiando-se também numa compilação feita em 1883 por Teófilo Braga e noutra mais antiga ainda feita em 1879 por Adolfo Coelho. Muitos desses relatos importados pelo contacto com povos indo-europeus, sofreram várias adaptações ao nosso meio e cultura. Mas muitos têm características unicamente ibéricas.
Estávamos com esperança de ler alguma história que se referisse a estes Anéis de Fadas, mas não encontrámos nenhuma referência nas dezenas de contos que estivemos a ler.
Pudemos também constatar que as fadas dos nossos contos não são seres esvoaçantes, luminosos e de uma beleza indescritível. A fada entra no conto essencialmente para cumprir a sua função, sem se perder tempo com descrições do seu aspecto físico. A bruxa é apenas uma fada maléfica.
Também nos pareceu curioso saber que alguns cogumelos eram usados em certas cerimónias religiosas devido ao seu efeito alucinogénio que provocava sonhos estranhos repletos de movimentos de luzes com várias cores, precisamente as características descritas pelas pessoas que afirmam já ter visto fadas num dado momento da sua vida.

Este assunto interessou-nos de tal maneira que voltaremos a ele quando dispusermos de mais informação
.

2008-03-31

Encerrados temporariamente

Avisamos os amigos que nos escrevem, preocupados com todo este silêncio que nos encontramos temporariamente encerrados devido a uma gripe que nos atingiu a todos sem conseguirmos evitar o contágio do pobre computador que anda também com vírus, mal humorado e sem força anímica para nada.
Na semana passada pegámos nas nossa bagagens e deslocámo-nos rumo à capital para assistirmos a vários espectáculos da banda "Chauffeurs Navarrus" que esteve a tocar no Casino de Lisboa.
Como já adivinhávamos por concertos anteriores, valeu a pena a deslocação por nos terem brindado com óptimos espectáculos sempre cheios de energia e alegria contagiando o público presente
O convívio com uma série de amigos que não víamos há uma série de tempo, incluindo a Dulce e o Ezequiel que simpatica e estoicamente ouviram o chorrilho de histórias e historietas que nos apressamos a contar como se o mundo acabasse ontem, mais aqueles que nem sequer conhecíamos pessoalmente, foi excepcionalmente agradável obrigando-nos a esquecer a existência de relógios e a ficarmos em alegre cavaqueira até de madrugada.
Trocar o ar puro desta quinta por aquele, enclausurado numa enorme sala ainda que com óptimos aparelhos de extracção de fumo, deu origem a que um vírus nos achasse belíssimos hospedeiros e ficou simpaticamente connosco.
E só para arrematar:
Quando regressámos à quinta, encontrámos todas as superfícies cobertas com uma fina camada de pó amarelo/esverdeado.
Descobrimos depois que a responsabilidade cabe a estes estróbilos masculinos dos pinheiros que libertam uma grande quantidade de grãos de pólen e que arrastados pelo vento vão fecundar os óvulos dos estróbilos femininos dando origem aos pinhões.
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Assim que melhorarmos, voltamos com novas histórias.
Obrigada pela preocupação

2008-03-11

Um passeio adiado

Há umas semanas atrás resolvemos aproveitar o domingo para visitar o Parque Natural do Douro Internacional que fica entre Barca de Alva e São João das Arribas.
A paisagem era deslumbrante com os seus maciços rochosos, bosques de carvalho negral e cerquinho, manchas amarelas de giesta, terrenos de granito e xisto, zonas rurais agrícolas com enormes extensões de laranjeiras, amendoeiras em flor pintando a paisagem d
e tons rosa e branco, olivais a perder de vista, assim como plantações de vinha que segundo dizem fazem parte da mais antiga região demarcada do mundo com vinhos premiados em Portugal e no estrangeiro.
Parámos em Freixo de Espada à Cinta, onde nasceu Guerra Junqueiro, com a intenção de visitar a torre de menagem de um antigo castelo gótico, conhecida também por Torre do Galo ou Torre do Relógio e tentarmos visitar as criações de bicho da seda que dão origem a uma produção de seda artesanal exportada para o estrangeiro. Pretendíamos ainda visitar a aldeia de Mazouco para vermos o “Cavalo de Mazouco” que pertence a uma série de vestígios da arte rupestre do Paleolítico Superior ao ar livre, dos primeiros a ser identificados na Europa .
Mas, devido a um imprevisto, o nosso passeio terminou em Freixo de Espada à Cinta e tivemos que regressar.
Ficou a determinação de voltarmos ainda nesta Primavera para tentar fazer um percurso de 8 horas numa extensão de 140 km com visitas guiadas a vários centros de interesse entre Barca de Alva e Aldeia Nova, sempre com o rio Douro ao lado, um dos maiores rios da Península Ibérica que escavou arrebatada e apaixonadamente
as rochas ao longo de milhões de anos e que desliza agora apático, aprisionado pelas barragens, no fundo de perigosas escarpas. Por ali ainda se pode avistar a águia-real e a cegonha-negra que estão em vias de extinção, o abutre do Egipto com dificuldades na sobrevivencia da espécie e a rara águia de Bonelli assim como o falcão peregrino, entre outras.
E este post terminaria aqui se não tivessemos ficado intrigados com uma espécie de moinhos sem mastros que salpicavam a paisagem de branco.
Ficámos a saber que se tratava de pombais e daí a explicação para uma série de aberturas visíveis por baixo do beirado dos telhados.

Embora na Idade Média já aparecessem pombais nos terrenos feudais, foi com o Renascimento que começaram a ser intensamente construídos por toda a zona agrícola da Europa Ocidental.
Os pombais tradicionais contribuíam fortemente para a economia familiar fornecendo carne de pombo ou borracho e o estrume, chamado “pombinho” fertilizante natural que ajudava a enriquecer os solos pobres para o cultivo da vinha, olival, laranjal, hortas, etc.
Existem pombais em quase todo o país. Mas só na zona do Nordeste conta-se com cerca de 3.500! A maioria tem planta circular ou em ferradura, lembrando formas arquitectónicas castrejas, com paredes construídas em pedra de granito e xisto, bem grossas para permitir edificação de patamares, buracos e prateleiras por dentro para os pombos nidificarem. No interior tem normalmente uma mesa onde é depositado alimento e água, principalmente nos períodos de maior escassez. A porta construída muito acima do nível do solo, mais parecendo uma janela baixa, serve para evitar a entrada de predadores como fuinhas, ginetos, gatos, doninhas, ratos, cobras e também para permitir a acumulação no chão do esterco das aves, não dificultando a abertura da porta. Esta está colocada de frente para a povoação ou para outro local que permita a vigilância frequente da população ou do dono. O telhado tanto é circular, como pode ter uma ou duas águas cobertas com telha ou placas de ardósia, posssuindo muitas vezes estatuetas e pinocos no cimo das cumeeiras.
Na foto abaixo, retirada da Net, pode ver-se o interior de um pombal em ruínas




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O pombo-das-rochas que nidifica nos penedos do vale do rio Douro, acaba por ser atraído para estes pombais construídos nas proximidades e onde vai encontrar alimento e um óptimo abrigo, o mesmo se passando com outras aves mais pequenas, como o pardal.
A partir da década de 60 uma grande parte da população rural do toda a região interior do norte, emigrou. Os que ficaram, foram modernizando as suas culturas e reduzindo o cultivo de cereais. Os pombais perderam a utilidade de outrora, começaram a ser esquecidos e entraram em degradação. Os caçadores ignorando a legislação da caça, abateram milhares de pombos muitas vezes aproveitando a localização dos pombais. Os pombos por sua vez, perante a falta de alimento e segurança, aproximaram-se dos centros urbanos onde passaram a ser alimentados pela população nos jardins públicos.
Entretanto o Instituto da Conservação da Natureza através do Parque Natural do Douro Internacional, considerado Área Protegida, deu início a um projecto pioneiro na recuperação de pombais tradicionais, valorizando a paisagem e contribuindo para melhorar os recursos alimentares de diversas aves de rapina em vias de extinção.
Presentemente já há uma forte sensibilização nas povoações e por isso foi possível fotografar um desses pombais, bem cuidado e habitado por bastantes pombos que fugiram em debandada perante a nossa aproximação. O terreno estava de tal maneira encharcado, cheio de marcas das lagartas de um tractor, que dificultou imenso o acesso.




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Aqui fica a sugestão para um passeio extremamente interessante.

2008-02-28

O perigo espreita no pinhal

Desde o início de Fevereiro que assistimos preocupados à saída das longas filas de processionárias que estão a abandonar os seus ninhos.
Para aqueles que ainda não sabem o que são processionárias, iremos fazer uma breve revisão sobre o tema.
A processionária ou a Thaumetopoea pityocampa é uma lagarta que se alimenta das folhas (agulhas) dos pinheiros, também podendo alimentar-se das dos cedros e abetos.
Os 300 ou mais ovos de cada fêmea são depositados em volta de uma agulha de pinheiro, protegidos por escamas do abdómen da borboleta
Poderão ver o seu aspecto entrando neste link: http://br.youtube.com/watch?v=ukXKBOvCAx4
As lagartas nascem entre Junho e Setembro e fabricam um ninho, ou vários, com os seus fios de seda, onde se resguardam dos frios do Inverno. Ao construirem vários ninhos orientados de maneira diferente, tentam defender-se das temperaturas incómodas, uma vez que não resistem abaixo dos -12º. nem acima dos 32º.
Durante as estações frias, saem à noite para se alimentar das agulhas dos pinheiros.
No início do ano, assim que o tempo começa a aquecer e até Março, as lagartas abandonam os ninhos descendo pelo tronco dos pinheiros, em procissão (daí o seu nome), sendo guiadas por uma fêmea que vai tecendo um fio de seda para não se perderem umas das outras.
Nesta altura do ano é vulgar ver as longas filas que se deslocam rapidamente, embora quase sem darmos por isso, procurando um solo solto que lhes permita enterrarem-se para crisalidar, aparecendo as novas borboletas no Verão, só tendo 1 ou 2 dias para serem fertilizadas e terminarem a postura, finda a qual perecerão.
Além de andarmos a perseguir as longas procissões para as destruir antes de se enterrarem, também cortamos os ramos dos pinheiros que contêm esses ninhos. Mas como há muitos pinheiros demasiadamente altos, usamos umas caixas que comprámos para o efeito que penduramos nos ramos e que têm dentro uma pastilha com feromona (tipo Chanel 5) para atrair a borboleta macho, sendo este depois surpreendido dentro da caixa por uma pastilha de insecticida. No Verão, limpamos as caixas frequentemente e colocamos novas pastilhas.
A foto abaixo mostra o interior de um ninho com as processionárias enroladas, defendendo-se do frio, antes de o destruirmos.

 
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Esta outra foto, mostra o local escolhido por uma fêmea-guia. Reparámos que a terra tinha sido remexida recentemente e ao escavar descobrimos o esconderijo dessa colónia.

 
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Ontem, ao darmos o passeio habitual de fim da tarde com os nossos cães pela extrema da quinta, fomos surpreendidos com o comportamento do Dongo que não parava de vomitar e de esfregar o focinho no chão. A Nanã ao ver a aflição do irmão dirigiu-se a ele para o lamber e no preciso momento começou a disparar em grandes correrias, babando-se e a ganir. Não tivemos dúvidas que tinha havido contacto com pêlos das processionarias. Tivemos que agir rapidamente, só perdendo tempo a procurar as coleiras e trelas e metemo-los de imediato no carro, partindo a grande velocidade para a clínica veterinária uma vez que a celeridade do início do tratamento pode ser a salvação do animal. Chegados à clínica, estavam mais calmos mas era muito nítida a língua grossa que mal cabia dentro da boca do Dongo e os edemas nas faces da Nanã. O médico veterinário já nos esperava e fez-lhes imediatamente o tratamento de choque necessário nestes casos. Felizmente as mucosas estavam com uma cor normal, ao contrário do infeliz cão que noutra sala ao lado estava a ficar com a língua azulada o que indiciava uma necrose dos tecidos, provavelmente com a queda parcial ou total da língua. A gravidade do seu estado podia ser devido a uma demora maior no início do tratamento ou um maior contacto com os pêlos das lagartas.
Foi este acidente que nos fez escrever mais uma vez sobre o assunto. Não esquecer que devem evitar passear com crianças ou animais de estimação em zonas de pinhais nesta altura do ano.

Para quem quiser saber mais, pode consultar esta página que tem um video extremamente bem feito e que responde praticamente a todas as questões sobre a processionaria. Está em espanhol mas é fácil de entender.

http://images.google.es/imgres?imgurl=http://www.espacioblog.com/myfiles/forestman/30tpcuco.jpg&imgrefurl=http://www.espacioblog.com/forestman/post/2006/03/19/la-procesionaria-del-pino&h=960&w=1280&sz=212&hl=es&start=3&tbnid=IWnJI5X-kNDuRM:&tbnh=113&tbnw=150&prev=/images%3Fq%3DCuculus%2Bcanorus%2B%2B%26imgsz%3Dxxlarge%26svnum%3D10%26hl%3Des%26sa%3DN

2008-02-18

Vem aí a Primavera

Aproveitámos a manhã para tirar algumas fotos e falar desta próxima chegada da Primavera. Não fora o frio intenso que se faz sentir durante a noite e já pensávamos ter terminado o Inverno. As plantas também se baralham com a diferença de temperatura entre o dia e a noite e por isso nota-se um atraso no desenvolvimento das flores em relação a outras zonas do nosso país.
As que se apressaram a abrir no jardim foram as da cameleira e do marmeleiro japonês, como podem ver na foto abaixo


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... as pequeninas do hamamélis


... os amentilhos pubescentes do salgueiro


E as primeiras flores dos damasqueiros, estando a aparecer também as dos pessegueiros de fruto temporão e as das amendoeiras










Ainda que as flores estejam um bocado cautelosas para não abrirem numa altura pouco conveniente, os animais é que estão a modificar rapidamente os seus comportamentos perante esta promessa de Primavera.

O pavão do nosso caseiro, o Jacob, veio viver connosco para assim ter o prazer de conviver com a Mariana a pavoa que já apresentámos num texto antigo quando foi sujeita a uma melindrosa operação à qual resistiu. Sendo ela uma jovem viúva, depressa se interessou por este novo namorado ao ponto de o acompanhar pernoitando com ele em cima do telhado da capoeira, ao relento, mesmo com estas temperaturas negativas..
O Jacob esforça-se agora para impressionar ainda mais a sua companheira, exibindo-lhe constantemente o seu rabo de penas coloridas, sem se aperceber que ainda é cedo e que as suas penas pouco desenvolvidas ainda não estão muito famosas para amolecer o coração da Mariana numa violenta paixão. Talvez por isso o desinteresse dela - mais que evidente - por esta pobre exibição do apressado Jacob. Apenas uma ou outra galinha é que lhe dirige um olhar de estranheza
.

De frente...


de lado...


... e de costas

2008-02-14

Quem é quem?

Andava aqui ás voltas sem saber como começar este texto. Queria homenagear alguém que não conhecendo pessoalmente considero um grande amigo, o Augusto Mota.
O acaso fez com que nos cruzássemos na blogosfera quando encontrei no “Pilriteiro” resposta a muitas questões que me andavam a preocupar, relacionadas com a jardinagem, com a agricultura, com o ambiente em geral.
A amizade foi-se instalando e durante esta simpática ligação fui conhecendo a qualidade artística dos seus “textos transversais” publicados no blog
“Palácio das Varandas”, mas também o caderno de prosa intitulado “quadriculado”, editado em 1959 e o livro “Sujeito Indeterminado” publicado em 2005, composto por pequenos textos num encantador jogo de palavras:
“Em noites de lua cheia enfunava as velas da fantasia e navegava solitário sobre as searas da solidão. A caminho do cabo da boa esperança”
A par da escrita também o desenho, a pintura, o mosaico, autor de diversas ilustrações em livros de poesia, cenógrafo em grupos amadores de teatro, vencedor de 3 primeiros prémios com o seu filme “Variações sobre o mesmo traço”, participou em várias colectivas. Em 1988 recebe da Câmara Municipal de Leiria o galardão do município "pela sua valiosa e multifacetada obra artística e cultural”
Entretanto a Gradiva reeditou há poucas semanas 500 exemplares do álbum de banda desenhada “Wanya - Escala em Orongo” com texto de Augusto Mota e desenho de Nelson Dias, falecido em 1993.
Editado pela primeira vez em Dezembro de 1973 pela Assírio & Alvim com uma tiragem de 5.000 exemplares que viria a esgotar-se rapidamente, acabou por entrar na lista dos livros considerados perigosos pelo anterior regime, situação que ficou resolvida com o 25 de Abril, quatro meses mais tarde.
Segundo Rui Zink trata-se de “um livro-poema generoso, engenhoso e complexo, a obra "Wanya - escala em Orongo" foi inovadora ainda na temática, cruzando ficção científica e o fantástico com uma mensagem de libertação social do Homem.”
Fiz a encomenda pela Internet e neste momento já estou na posse do álbum para o poder ler calmamente, não esquecendo o momento político em que foi escrito... há 35 anos atrás.


 
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Para quem quiser saber mais, poderá consultar o site: http://wanya-escalaemorongo.blogspot.com/

2008-02-11

Uma visita quase escaldante

Uma tarde destas, quando estavamos sentados na salinha pequena a estudar um plano para o tratamento das árvores de fruto, ouvimos um barulho estranho meio aflitivo e abafado. Levantámos a cabeça a esperámos que se repetisse, o que aconteceu poucos minutos depois. Percebemos que o som vinha do interior da salamandra. Abrimos a porta com cuidado e vimos com muita surpresa que se tratava de uma pardoca ou pardaleja, a fêmea do pardal.
Dizemos com muita surpresa porque já não esperavamos este tipo de visitas depois de termos mandado cobrir a saída da chaminé exterior com uma rede fina.
A fêmea imobilizou-se ao sentir a portinhola a abrir e nós aproveitámos esse momento para tirar algumas fotos.

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Foi uma sorte o animal ter dado sinais da sua presença. Se não fosse assim, com as noites tão frias que têm estado nesta zona, acabaríamos por dar origem a uma cena dramática quando acendêssemos a salamandra ao serão.

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Felizmente tudo acabou em bem e a pardaloca foi devolvida ao seu espaço, no qual entrou com um esvoaçar nervoso.

2008-01-28

O tremoço, este nosso amigo

Há poucas semanas andavamos em arrumações e descobrimos um saco de tremoços esquecido numa prateleira, já com 3 anos e que ainda por cima esteve em tempos numa arca frigorífica para os defender do bicho. Tudo indicava que teriam perdido a sua capacidade germinativa e por isso fizemos um teste e embrulhámos alguns em algodão molhado como fazíamos na escola. Passados 3 dias tinham este belo aspecto e por isso resolvemos lançá-los à terra para obtermos alguma produção.
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Dissemos lançar à terra e não semear, porque na verdade o tremoço não gosta de ser enterrado. Se o fizermos, ele torna à superfície, teimosamente, devido à sua maneira de ser que exige ser ele a escolher a forma de se agarrar à terra. Por isso a primeira fase foi esta:
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Como se seguiram dias de chuva persistente, num instante os tremoços perderam a sua secura, incharam e escolheram a melhor forma para se segurarem à terra
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Poucos dias depois já estavam mais crescidos e incomodados com o chapéu protector ...
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... e num instante começaram a livrar-se deles mostrando com alguma cautela a plantinha que vinha a emergir.

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Agora vamos ter que esperar uns meses para criarem vagem e depois o amadurecimento da semente para ser colhida, malhada, escolhida e ensacada.
O tremoço pertence à família Fabaceae e à espécie Lupinus
O seu nome teve origem na palavra árabe al-turmus. Na vizinha Espanha é conhecido por altramuz, tramúz, entremozo e chocho.
As primeiras referências a esta planta surgem no Egipto há cerca de 3.000 anos.
O tremoço é utilizado na alimentação humana e na dos animais, no enriquecimento dos solos, na indústria farmacêutica e na fitoremediação
Sempre pensámos que os tremoços eram péssimos para a saúde devido aos resquícios na memória de uma lenda repetidamente ouvida nos nossos tempos de criança em que teriam sido amaldiçoados pela Nossa Senhora.
Fugia a Sagrada Família no seu burrico quando, ao passarem por um campo de tremoceiros já maduros, estes chocalharam ao serem pisados e empurrados pelas patas do animal, denunciando o local de fuga aos seus perseguidores. A santa não lhes perdoou a fraqueza e lançou uma maldição que consistia em nunca matarem a fome a quem os comesse, o que se tornou num bem para as cervejarias e tascas que sabedoras desse castigo continuam a servir pires com tremoços que não matam a fome a ninguém e bem salgadinhos ainda têm a virtude de provocar mais sede e assim aumentarem o consumo das bebidas.
Algumas pessoas não sabem que os tremoços que comemos, foram primeiramente cozidos e depois cobertos de água mudada com frequência por diversos dias até perderem o seu amargo original. Se não houver este procedimento, são completamente intragáveis e altamente tóxicos.
Esse amargor é devido à presença de vários alcalóides como a anagirina (usada como cardiotónica e teratogénica), a esparteína (usado como ocitócico e antiarrítmico) a lupanina, (influenciando os centros respiratórios e vasomotores), a luteona e a wighteona. A intoxicação identifica-se por náuseas, vómitos, tonturas, dores abdominais, mucosas secas, hipotensão, retenção urinária, taquicardia.
Esta toxicidade desaparece após a fervura e o demolhar por vários dias, tornando o tremoço doce e um alimento de eleição beneficiando as pessoas e animais que se alimentem dele.
O tremoço é um excelente adubo em verde quando enterrado nas terras porque tem a faculdade de fixar o nitrogénio do ar, absolutamente necessário para o crescimento de novas plantas o que o torna também responsável pelo aparecimento de novos ecossistemas. As suas raízes conseguem descompactar e reduzir a erosão dos solos, ajudando à infiltração de água. Óptimo para melhorar a estrutura física dos solos. Resistente às geadas, gosta de Invernos húmidos e Verões secos
O tremoço é uma leguminosa tal como o feijão, a fava, o chícharo, o grão de bico, a ervilha, a lentilha, as giestas, os tojos, as olaias, etc
Tem o dobro das proteínas do que a maioria de outras leguminosas. É rico em ferro, fósforo, vitamina E, vitaminas do complexo B, biotina e ácido pantoténico
Estudos feitos na União Europeia, comprovam a sua acção no controlo dos níveis de açúcar no sangue, na redução do apetite, na diminuição da quantidade de colesterol no sangue, nos efeitos sobre a obstipação intestinal e por último ajudando a evitar o aumento da obesidade.
Costumam também ser referidas as suas propriedades emolientes, diuréticas e cicatrizantes, o combate a parasitas intestinais e também o seu estímulo na renovação das células favorecendo a regeneração da pele.
Em França existe um produto comercializado para o fortalecimento capilar utilizando peptídeos, vitaminas e oligoelementos retirados ao tremoceiro.
Há uma série de tratamentos caseiros que aconselham a ingestão de um ou mais tremoços amargos com a água de demolhar (ambos tóxicos) todas as manhãs em jejum para baixar o colesterol, os valores glicémicos ou as dores artríticas, mas nem nos arriscamos a divulgar aqui por ignorarmos o seu impacto nos organismos de cada um.
Depois de várias pesquisas, não conseguimos encontrar muitas receitas utilizando os tremoços. Apenas um rizotto que passamos para aqui:
Derreta manteiga e junte cebola e bacon, até ficarem fritos sem queimar. Junte depois os tremoços, o arroz e refogue bem. Acrescente um pouco de vinho e deixe evaporar. Deite um cubo de caldo de carne e a água suficiente para cozinhar o arroz. Quando estiver cozido, junte um pouco de nata e queijo ralado. Deixe arrefecer um pouco e acrescente um ovo apenas desmanchado.
E uma outra de bolinhos utilizando farinha de tremoço que desconhecemos se é comercializada em Portugal:
Misture muito bem 50 gr de açúcar com 90 gr de manteiga. Junte 100 gr de farinha de tremoço e 50 gr de amêndoas bem trituradas. Mexa energicamente até formar uma pasta homogénea. Faça pequenas bolinhas e coloque em tabuleiro untado. Leve ao forno por 20 a 30 minutos
Também vimos sugestões para introduzir tremoços nas saladas de alface, tomate, agrião ou misturados nas verduras que acompanham o bacalhau, o salmão fumado, com alguns cozidos de carne ou a acompanhar pratos de queijo.
Não queríamos finalizar este texto sem nos referirmos ao grupo de investigadores pertencente ao departamento de Botânica e Engenharia Biológica do Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa que conseguiu criar um fungicida natural de toxicidade nula a partir de uma proteína do tremoço germinado, designada de BLAD (Banda de Lupinus Alpus Doce).
O produto denominado Problad além de uma forte actividade fungicida tem um poderoso efeito bioestimulante sobre as plantas. Pode ser utilizado na vinha, nos relvados desportivos, nas culturas de estufa propícias à proliferação de fungos, na agricultura biológica em geral.
Como pode ser ingerido pelo homem, evita o cumprimento do intervalo de segurança exigido por lei no uso de pesticidas químicos. É um produto completamente inovador a nível internacional e está a ser objecto de homologação nos Estados Unidos e na União Europeia, esperando-se que ainda este ano comece a ser lançado no mercado mundial.

2008-01-09

Ainda sobre os ouriços-cacheiros

Como ficámos muito intrigados com a morte inesperada do simpático ouriço (e também com a de um seu irmão que apareceu após termos recolhido este, não tendo direito a fotos por ser muito mais tímido), escrevemos a Rui Borralho da Naturlink pedindo informação sobre estes animais e explicando o que tinha acontecido, comparando esta situação com uma outra em que conseguimos criar 3 ouricitos encontrados junto da mãe morta, que se deram bem em cativeiro, alimentados com leite, frutas e ovos crus, sendo mais tarde devolvidos à liberdade.
Publicamos aqui o mail de resposta, devidamente autorizado, esperando assim ajudar todos os amigos que se deparem com estes animais em situação de perigo:

“Os ouriços-cacheiros são das poucas espécies de mamíferos que podem hibernar em Portugal no Inverno (sobretudo nas zonas mais frias de clima continental), mantendo-se muitas vezes num estado letárgico de quase total inactividade e muito baixa temperatura corporal. Se, por alguma razão, são forçados a sair desse estado (por exemplo devido a uma perturbação exterior), podem tardar horas até recuperar a temperatura corporal normal e voltar a assumir um comportamento mais activo próximo do habitual, constituindo esta mudança um choque para os animais. Tal eventualmente poderá ter estado na origem do comportamento do animal mais pachorrento.

Por outro lado, tratam-se de mamíferos da ordem Insectivora, alimentando-se em liberdade sobretudo de invertebrados (apesar de terem por vezes uma alimentação inesperadamente variada), pelo que talvez a ração dos cães contivesse alguma componente que não se adequasse ao processo digestivo dos ouriços.

Os casos de recolha de ouriços e da sua morte depois de passarem algum tempo em cativeiro são relativamente comuns, creio que devido sobretudo ao stress da captura e cativeiro e a alimentação inadequada, pelo que recomendamos que quando as pessoas encontram ouriços, mesmo que pequenos, não os levem para casa, limitando-se a afastar alguma eventual ameaça (como a presença de um cão), ainda que a situação anterior que refere dos ouriços encontrados junto da mãe morta requeresse realmente a sua alimentação em cativeiro caso contrário os animais provavelmente morreriam.

Se desejar, poderá aceder a uma ficha com informação sobre a espécie através do seguinte link:
http://www.naturlink.pt/canais/Artigo.asp?iArtigo=4315

Curiosidade: Um ouriço-cacheiro hibernado apenas respira uma vez de seis em seis minutos, em vez das mais de trinta vezes por minuto que normalmente respira durante o período de actividade.

2007-12-29

É só para dizer...

É só para dizer que este amiguinho que já vos apresentei há dias e que afinal não chegou a hibernar mais parecendo um animalzinho de estimação por gostar de andar sobre nós apreciando o calor dos nossos corpos, metendo o focinhito dentro das nossas mangas ou na gola quente das camisolas…
 
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… estando cada vez mais confiante nas nossas mãos…
 
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… e adormecendo facilmente em qualquer posição...
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... apareceu morto na noite de Natal dentro da caixinha onde dormia.

2007-12-19

Uma história quase de Natal

O frio veio tarde mas apareceu com toda a força. No início só o sentíamos ao cair da noite deixando os dias encherem-se de sol e a manterem-se demasiadamente quentes, o que dava origem a violentos choques térmicos.
Os eucaliptos que começam a invadir as zonas próximas após o devastador incêndio de há 2 anos, não conseguiram manter as suas folhas verdes após estas mudanças bruscas de temperaturas e têm este aspecto muito idêntico a uma nova passagem do fogo

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Mas agora o frio já se faz sentir de noite e de dia, pondo fim à infestação de lagartas e outros bicharocos que nos estavam a dizimar a horta.
Com a chegada das primeiras chuvas, ainda que muito fraquinhas, resolvemos semear um terreno de pasto para corte (para fazer fardos). O saco de sementes diversas custou tão caro que temos receado semeá-lo com um tempo demasiado seco. Mas, como não se pode esperar indefinidamente, resolvemos arriscar e preparámos as terras.
O dia da sementeira é um dia de alegria para as dezenas de corvos que já conhecem o trabalho do tractor perseguindo-o e já sabedores que após este trabalho segue-se aquele momento extraordinário em que se atiram sementes para a terra que embora cobertas com outra passagem do tractor, muitas ficam à superfície fazendo as delícias de qualquer corvo mesmo pouco guloso.
Por isso, e como sempre, após a sementeira seguiu-se a invasão dos corvos. Esperamos que as sementes dêem para eles e para nós que as pagámos.
Mas o trabalho das lavras no terreno, preocupa-nos sempre porque desconcertam temporariamente o habitat de uma série de pequenos animais. Aquele pelo qual sentimos um maior carinho, é o ouriço-cacheiro.
Como estivemos e estamos ainda a preparar terrenos para outras sementeiras, pode acontecer destruirmos as tocas dos ouriços que nesta altura devem estar a hibernar defendendo-se deste frio intenso.
Uma noite destas, depois do passeio tardio com os nossos cães, reparámos que a Nanã não parava de ladrar olhando fixamente para o chão. Fomos ver o que era e vimos um ouriço ainda muito jovem, todo enrolado e sem se mexer.
Pegámos-lhe com muito jeito, mais por nós do que por ele, e trouxemo-lo connosco. Devia ser um dos tais desalojados porque não estava tempo para um animal hibernante andar a passear pelos terrenos.
Pusemo-lo numa gaiola com palha e deixámo-lo coberto com ela deixando também pedaços de maçã e um pequeno ovo. No dia seguinte a comida estava intacta e ele continuava enrolado no mesmo local.
Ao fazermos uma panelada de comida para os cães, espalhou-se o vapor da cozedura pelo espaço, aquecendo-o. O nosso pequeno amigo ao sentir aquele ar quentinho, começou a espreguiçar-se muito lentamente... primeiro o pescoço, depois as patas da frente, num vagar mesmo de preguiça, depois as patinhas de trás esticando-se completa e longamente (sentimos um desgosto enorme de não termos a máquina connosco para registarmos este momento tão engraçado), começando depois a farejar o ar e a andarilhar pela gaiola.
Ficámos muito preocupados porque na realidade a chegada da Primavera era só uma aparência, não distinguida por um ouriço inexperiente destas coisas da Natureza.
Assim que apagámos o fogão e o ar arrefeceu de novo, o animal começou a enrolar-se e tremer de frio. E agora que fazer? Mantê-lo numa temperatura que lhe fosse cómoda até à chegada real da Primavera ou deixá-lo perceber que afinal ainda estávamos no Inverno?
Trouxemo-lo para casa e ao sentir o calor das nossas mãos, o ouriço estava cada vez mais descontraído, abrindo-se facilmente e deixando fazer-lhe festas no focinho.
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Andava tão à vontade que nos permitia visualizar uma série de pulgas caminhando pelo seu corpo. Também deviam estar desorientadas sem saber se haviam de abandoná-lo que de tão frio parecia estar prestes a morrer ou manterem-se até o seu aquecimento.
O processo arranjado para as eliminar foi retirá-las com uma pinça, um trabalho a exigir muita perícia com uma forte dose de paciência e golpe de vista.
Passado algum tempo reparámos que já não tremia de frio e pusemo-lo na caixa com palha para vermos qual a sua decisão. E ele tomou a mais acertada: foi-se afundando com as patas, remexendo na palha, até ficar todo coberto e deu início de novo à sua hibernação.
Agora é só deixarmos pedaços de fruta para ele poder comer quando a fome apertar um pouco, mesmo nesta fase de letargia.
Prometemos ir dando notícias deste novo inquilino

Aproveitamos este post para deixarmos os votos de Boas Festas e Feliz Ano Novo para todos os amigos

2007-11-27

Só faltaram as fadas

Estava uma tarde quente de Verão e eu descia a Rua do Alecrim em direcção à estação dos comboios, depois de mais um dia de trabalho no banco.
Parei uns curtos minutos em frente de uma montra para apreciar umas peças de cerâmica e pude dar uma olhadela ao meu aspecto com o cabelo cortado curto recentemente, a minha t-shirt amarela com uma flor bordada com missangas brancas e as calças à marinheiro de ganga também branca. Ao ombro a minha malinha de pano verde e vermelho com tirinhas amarelas, alvo da chacota dos meus colegas.
Sentia-me fresca e leve e por isso continuei a descer a rua num passo descontraído.
Ao chegar ao largo do Cais do Sodré, cujo nome é Praça Duque da Terceira, atravessei a primeira faixa com o sinal verde para os peões para depois atravessar a faixa dos carros eléctricos que entretanto estava com luz vermelha.
O carro eléctrico aproximava-se com velocidade mas dava perfeitamente para atravessar diante dele. E foi o que fiz. Eu e algumas pessoas que pensaram da mesmo forma.
Mas aconteceu um imprevisto: a correia da mala esgueirou-se do ombro e a malinha caiu, ficando no meio dos carris e aí já sem tempo para a poder apanhar. Esperei que o carro passasse para depois a reaver.
O carro eléctrico abrandou a velocidade mas ao passar, arrastou a mala consigo. Percebi que tinha ficado agarrada às peças salientes que o carro tem por baixo. O condutor avançou um pouco, depois fez marcha atrás mas a malinha não caiu mantendo-se presa a ele. O carro eléctrico imobilizou-se.
Olhei para o condutor expectante, para os passageiros debruçados das janelas, para as pessoas que se juntaram à minha volta curiosas com a ocorrência e, suspirando fundo, percebi que tinha que agir rapidamente.
E assim fiz.
Tirei um pedaço de cartão que espreitava de um caixote de lixo ali perto e ajoelhei-me sobre ele para poupar as calças brancas. Mas a correia estava de tal maneira enrodilhada naquelas peças que não tive outro remédio senão deitar-me no chão para poder trabalhar.
Não sei se algum de vós já viu as partes baixas de um carro eléctrico. Aquilo está tudo coberto por uma grossa camada de massa consistente, preta de tanto lixo acumulado e agarrando-se teimosamente a qualquer coisa que lhe toque
Acabei por conseguir soltar a mala e quando me preparava para sair dali, ouvi os gritos lancinantes e estridentes de uma mulher e pensei:
- Não me digam que o facto do carro eléctrico estar aqui parado já deu origem a um acidente grave!...
Consegui esgueirar-me daquele inferno preto e os berros da mulher pararam como por encanto ao ver-me sair sã e salva. Só então percebi que os gritos eram sobre mim perante a aparência de ter sido trucidada pelo veículo. Fiquei contente que alguém desconhecido sofresse com o meu possível sofrimento.
Já de pé dei-me conta do meu aspecto horrível com camadas grossas de massa presas às mãos, aos braços, aos cabelos agora pesados. Passei as mãos pelas costas e o mesmo se passava com a minha t-shirt amarela e com a parte de trás das calças
A mala não se abriu e por isso não perdi nada. A caixinha da maquillage e o espelhinho é que estavam partidos e o livro que andava a ler na altura, ficou meio cortado.
O condutor tocou para se despedir. Levantou o braço e o carro eléctrico seguiu caminho. As pessoas que se tinham juntado à minha volta, afastaram-se comentando o sucedido.
E eu apanhei o comboio, com montes de gente a olhar, intrigados com o meu aspecto e tendo que fazer a viagem em pé pela impossibilidade de me sentar com a parte de trás toda coberta de massa consistente.

O livro mantenho comigo... como troféu.
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2007-11-06

Um milho quase tradicional

Todos os anos semeamos meio hectare de milho para fazer face aos reforços na alimentação dos galináceos, ovinos e equinos.
Há cerca de 6 anos comprámos um saco de 5 quilos de milho híbrido e tivemos uma belíssima produção de óptima qualidade. Em Abril semeamos sempre milho da produção anterior.
Acontece que de ano para ano, a produção tem vindo a decrescer sendo o próprio grão muito mais fraco.
Ficámos então a saber que é uma característica do milho híbrido, a produção ir decaindo nas gerações seguintes e, para manter os mesmos níveis de produção é necessário adquirir semente nova por cada sementeira.
Mostro-vos uma foto com algumas maçarocas deste ano onde podem reparar que há muitas falhas no grão e este tem vários tamanhos e formas, parecendo-se cada vez mais com o milho tradicional.
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O milho é uma planta da familia Gramineae e da espécie Zea mays. Originária da América Central. Tem uma grande capacidade de adaptação e por isso é cultivada praticamente em todo o mundo. É um dos alimentos mais nutritivos que se conhece. Como o grão conserva a sua casca, é muito rico em fibras.
A planta do milho é bastante curiosa. É monóica o que quer dizer que tem flores masculinas (bandeira ou pendão) e flores femininas onde estão as conhecidas barbas e onde se vai desenvolver a maçaroca .
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Por norma a planta não se auto fecunda o que daria maçarocas muito raquíticas. Para isso não acontecer, as flores masculina e feminina na mesma planta, amadurecem em tempos diferentes em que o desprendimento do pólen da bandeira não coincide com a capacidade de fecundação da flor feminina.
Por isso se diz que o milho é uma planta de polinização cruzada por fecundar as plantas perto de si através de agentes externos, especialmente por correntes aéreas.
Os milhos híbridos usados até aqui eram manipulados de uma forma simplificada, obtendo-se a partir do cruzamento de plantas de milho com outras variedades de milho mais resistentes ou com maior produção.

Ao chegarmos a este ponto temos necessidade de diferenciar os milhos híbridos dos transgénicos também conhecidos por híbridos de 2ª.geração.

Todos os seres vivos têm várias características cujas formas ou funções são determinadas pelos seus genes. São recebidos dos seus progenitores e passados para as gerações seguintes.
Graças a essas diferentes características é que podemos diferenciar os animais das plantas e das pessoas e perceber as diferenças entre os elementos de cada grupo.
Na manipulação tradicional só se podem cruzar espécies idênticas e os genes que eram transferidos neste cruzamento, transportavam com eles características diversas não controladas .
Uma vez que todos os genes tanto humanos, como vegetais, animais ou bacterianos são criados a partir do mesmo material, isso permite que actualmente a modificação genética possa misturar, por exemplo, genes de animais, com os de vegetais ou de bactérias, dando origem a espécies completamente novas e estranhas.
Em Portugal o Governo autorizou a cultura de milho transgénico manipulado com o gene do Bacillus Thuringiensis que contém uma proteína tóxica para as larvas, conhecidas por broca do milho, não havendo necessidade de usar pesticidas para controlar esta praga.
À primeira vista parece que os organismos geneticamente modificados (OGMs) resolveriam muitos problemas actuais:
Actualmente podem-se juntar determinados genes para que as plantas fiquem resistentes ao frio ou ao calor desenvolvendo-se assim uma agricultura ampla durante o ano inteiro independentemente do tempo que fizer; modificou-se o arroz de forma a conter uma série de vitaminas que não entravam na sua composição; criou-se uma soja resistente aos herbicidas; milho com genes de escorpião para evitar o ataque de certos insectos; morangos com genes de peixe de zonas geladas para assim resistirem melhor ao frio; café que amadurece mais rápido; soja com sabor a carne; algodão com genes de uma flor azul, tornando-o também azul de forma a não ser necessário o tingimento das gangas; batata e tomate resistente às pragas de insectos.etc, etc
As manipulações genéticas são hoje quase infinitas dependendo mais do interesse das multinacionais do que da capacidade dos laboratórios.
Os novos genes introduzidos modificam a sequência do DNA, reprogramando-o e por isso dando origem a uma nova espécie.
A natureza tem as suas leis e normalmente reage mal contra os híbridos. É o caso do cruzamento entre o cavalo e a burra ou da égua e o burro, cujas crias são estéreis, o mesmo acontecendo com o cruzamento de algumas aves.
Como vai a Natureza reagir perante esta introdução de novos seres vivos, fabricados no laboratório quase de um dia para o outro sem terem sofrido o efeito da evolução/adaptação?
O que pode acontecer ao ser humano ao ingerir grandes quantidades de agro-tóxicos existentes nos genes introduzidos nas farinhas de milho ou soja, que por sua vez estarão presentes na carne ou peixe de aquacultura alimentados com estas rações?
Os genes resistentes aos herbicidas podem dar origem a novas pragas?
Os genes insecticidas poderão originar resistências nos insectos nocivos ou matar insectos úteis?
O pólen das plantas tornadas estéreis por interesse das multinacionais obrigando assim os agricultores a comprar sementes todos os anos, pode também esterilizar outras plantas na Natureza?
Como reagirá o nosso organismo ao ingerir genes de escorpião ou outros igualmente estranhos?
E as perguntas que nos surgem são imensas.
Nós não somos, para já, contra os transgénicos! Somos sim contra esta corrente de apoio aos transgénicos que não hesita em classificar de burros, ultrapassados ou arautos da desgraça, todos aqueles que dão sinais de terem algumas preocupações.
O que mais nos preocupa é sabermos que presentemente ninguém poderá responder às nossas questões. Tudo o que se diz de parte a parte não passa de conjecturas. Só o tempo nos dará a resposta certa.
Actualmente é obrigatório referir nas embalagens do milho e soja se estes foram geneticamente modificados. No entanto essa referência não existe nas embalagens com várias farinhas como as usadas na alimentação de crianças, ou na carne e peixe de animais alimentados com esse tipo de rações.

E vamos terminar a falar do nosso milho, tal como começámos.
Não temos fotos do início das tarefas que foi o lavrar as terras, o semear, o sachar, o regar, mais tarde cortar as bandeiras e depois as maçarocas. Vamos fazê-lo no próximo ano. Por agora só temos fotos da fase final.
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As maçarocas depois de colhidas e desfolhadas ficam uns dias a secar ao sol...
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...depois despejam-se os sacos cheios de maçarocas na parte superior da malhadeira e esta arranca o grão, separando-o dos sabugos...
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... e por fim o grão fica a secar mais alguns dias ao sol antes de ser ensacado e arrumado para ser utilizado durante o ano.

2007-10-22

Quando os homens da ciência também falam de compotas…

Há umas semanas atrás, recebemos um mail de um senhor chamado Mário Portugal que explicou ter-nos conhecido através do post de Março deste ano onde falamos do cientista Bettencourt Faria... e que era seu irmão.
As grandes surpresas da blogosfera !
A partir desse momento iniciou-se uma troca diária de mails.
O Mário é uma pessoa extremamente delicada e generosa, fazendo parte da grande família de radioamadores. Tem um saber imenso sobre múltiplos assuntos relacionados com a ciência. Uma curiosidade desmedida sobre o funcionamento de tudo o que é novo. Um gosto enorme pela vida e uma alegria que transpira em tudo o que escreve Os seus mails lêem-se e relêem-se absorvendo todas as informações e memórias que ele adora partilhar.
Entre tanta informação variadíssima, fomos surpreendidos pela gentileza do envio de uma receita ainda manuscrita pela sua falecida mulher.
Em sua homenagem demos-lhe o nome de “Doce de Figo da D. Alice”
Como a nossa figueira ainda tinha uns figos meio maduros, resolvemos experimentar a receita de imediato. É facílima de fazer e posso garantir-lhes que é um doce de comer e chorar por mais. Para os interessados (e estamos a pensar no Luciano) aqui segue a receita.

Primeiro lavam-se os figos e depois faz-se em cada um, 2 ou 3 furinhos com um palito.
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A seguir pesam-se e põem-se num tacho, juntando igual peso em açúcar. Cobrem-se com água e deixa-se ficar a descansar de um dia para o outro.
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No dia seguinte põe-se o tacho ao lume e vai-se deixando ferver lentamente mexendo com cuidado por uma hora ou mais
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de forma a ficar um caramelo não muito espesso.
Se por acaso engrossar demasiado, como nos aconteceu, junte um pouco de água com precaução porque vai espirrar pela certa.
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Depois de pronto é só deixar arrefecer e pôr em frascos de boca larga
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Comem-se assim inteirinhos e bem regados de caramelo.
Se ainda têm alguns figos maduros ou meio maduros nas vossas figueiras, não hesitem e experimentem. Depois agradeçam esta partilha ao cientista Mário Portugal :))

2007-10-03

Os nossos cachorros

Depois de uma ausência justificada por algum cansaço e falta de imaginação para o exercício da escrita, voltámos ao vosso convívio para vos mostrar as fotos dos novos residentes na quinta.
 
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Apaixonámo-nos por estes dois manos Leões da Rodésia assim que vimos a ninhada com um belíssimo aspecto denunciando um tratamento cuidado, assim como os seus progenitores.
Leão da Rodésia é uma raça africana, óptima para guarda e que era usada em matilha na caça ao leão.
Nós somos um pouco indiferentes ao pedigree dos cães porque sempre tivemos rafeiros, encontrados abandonados. Mas compreendemos que alguns comportamentos são mais previsíveis em determinadas raças. Não somos muito entendidos no assunto mas há duas delas que fazem parte da nossa paixão. A primeira é o Cão de Castro Laboreiro, uma raça portuguesa muito antiga, que mantém características lupinas. Autóctone de Castro Laboreiro, freguesia no extremo norte de Portugal, pertencente ao concelho de Melgaço, esteve em vias de extinção. Só os esforços de algumas pessoas interessadas na divulgação da raça com características de guarda e pastoreio é que evitaram que tal tivesse acontecido. Foram ao ponto de distribuir cachorros por pastores da zona para tentarem implementar o uso deste tipo de cão. Há muitos anos que temos um enorme carinho por esta raça e esforçamo-nos por os termos na nossa companhia. Com a morte do Odin a que me referi no post “Será que vale a pena?” ficámos apenas com o Baco, aquele cão grande de olhar atento que está deitado aos meus pés esperando que me levante da sesta, no post “É só por um bocadinho”. É um cão de aparência feroz para estranhos mas de uma total dedicação ao dono e muito afectuoso para com as crianças, como bem pode dizer a pequena Leonor que o tem como confidente, abraçando-se ao seu pescoço, enquanto se lastima em grandes prantos, perante a imobilidade e o olhar compreensivo de uma alma canina que percebe o desgosto e lhe dá o apoio da companhia serena.
O Baco não é um cão de pastoreio porque não o soubemos preparar, ignorando que havia a necessidade de o introduzir no estábulo onde deveria comer e dormir para aprender a conviver com as ovelhas desde pequenino. Por isso, sofre do impulso de caçar borregos, muito estimulantes nos seus saltinhos e pequenas correrias. Não vale a pena insistir porque não consegue resistir. Inicia a perseguição com melhor ou pior resultado e a seguir mete-se no canil com um ar muito comprometido. A única forma de evitar esta situação é ter o rebanho afastado das vistas e sempre que possível em pastos protegidos por rede ovelheira.
Depois do Castro Laboreiro, a nossa paixão vai para o Leão da Rodésia ao qual estamos muito ligados desde que tivemos o Thor, a quem dediquei um post de saudade em Setembro do ano passado e a sua irmã Tanit que ainda é viva embora já a ficar velhota e com vários problemas de artrose. Chamava-lhes a minha guarda pessoal.
Os Castros passavam o tempo rondando a quinta por dentro e por fora e as casas, preocupados com todo o movimento estranho. Os Leões pouco se afastavam, preocupados com a guarda dos donos. Quando fazíamos nós as rondas, o Thor ia sempre colado a mim, a Tanit ao meu marido, calados e atentos a todos os ruídos. Faziam uma guarda excessiva aos bens dos donos. Não os podia ter à solta enquanto trabalhavam os homens das obras porque se sentavam em cima da pilha de tijolos e dos sacos de cimento e rosnando impediam que alguém utilizasse os nossos materiais. Outra mania que tinham era a de não aparecerem, embora estivessem atentos, quando alguém entrava na quinta mas presentes, e bem presentes quando saía. E o pior é que carros e bicicletas, depois de entrarem aqui, já não podiam sair… talvez por acharem que passavam a pertencer-nos. Bem, e se a pessoa entrava de mãos vazias e saía com embrulhos, então é que perdiam mesmo a cabeça.
Identificam-se facilmente pela crista no dorso formada por pêlos que crescem no sentido da cauda para a cabeça, ao contrário do que sucede com a restante pelagem e por isso o nome original de Rhodesian Ridgeback como podem reparar na foto abaixo
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E então, nós que só íamos ver o aspecto de uma ninhada, acabámos por vir para casa, não com um mas sim com dois cachorros, um casalinho de manos que parecia serem muito unidos.
Aos poucos vão sendo aceites pela matilha residente. Na foto abaixo podemos reparar nas suas brincadeiras perante a indiferença do Baco que se comporta como o líder e da Tanit que já estava cansada de brincar com eles, na sua preocupação de os preparar para futuros guardas.
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Apenas a Pandora, que já conhecem do texto “É só por um bocadinho” estando deitada à direita da foto e que gosta de caçar coelhos que oferece depois ao nosso caseiro, é que não está para aturar estas tropelias constantes e ignora-os simplesmente.
Alguém nos disse que era comum dar nomes africanos aos cães desta raça e como temos a mania de dar nomes de deuses antigos, andámos a pesquisar a mitologia africana. Foi difícil mas acabámos por nos decidir por Dongo, o deus do trovão e do fogo e Nanã Buluku (utilizamos só o primeiro nome), divindade hermafrodita, deusa da chuva, protectora dos doentes e idosos.
Na foto abaixo pode-se ver a preocupação deles perante o afastamento dos donos.
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O Dongo, que só tem 4 meses, já me acompanha nas caminhadas, com o focinho colado a mim, tal como fazia o saudoso Thor.
São tão traquinas e têm uma tal vitalidade que parece termos o diabo à solta aqui na quinta.

Post-Scriptum: Soubemos hoje que 3 manas desta mesma ninhada ainda esperam por donos dedicados.

2007-09-16

Negros frutos

Nesta tarde cinzenta enquanto bebíamos uma mistura de chá príncipe com flores de tília e saboreávamos uns biscoitos de canela acabadinhos de sair do forno, estivemos a ouvir dois Cd’s da Billie Holiday.
Billie Holiday nasceu a 7 de Abril de 1915 em Baltimore, no seio de uma família pobre. Seus pais tinham 15 e 13 anos quando ela nasceu e naturalmente sem maturidade necessária para a educar. O pai abandonou a família quando Eleanora, seu nome de baptismo, era ainda bebé. Teve uma infância e adolescência miseráveis sendo violada em menina e cravando os dentes no fel da vida através da prostituição, prisões e drogas. Começou a cantar com 15 anos nos bares nocturnos de Nova Iorque, tendo acompanhado mais tarde os famosos Bessie Smith, Duke Ellington, Count Bessie, Lester Young e outros.
Mesmo no auge da sua carreira, foi sujeita a actos de segregação racial, não podendo frequentar os mesmos hotéis dos brancos quando acompanhava a banda nas suas tournées e sendo obrigada a usar elevadores de serviço para não incomodar os clientes brancos. Casou-se diversas vezes e essas ligações apenas serviram para a afundar mais no lado negro da vida por se ver trocada por outras mulheres, por ser roubada, por ser espancada e por ser levada a experimentar drogas cada vez mais fortes.
A sua voz tinha uma tessitura de uma oitava só. Mas essa limitação vocal era compensada com um intenso dramatismo, com uma tal expressividade que a tornava única.
Morreu em Nova Iorque a 17 de Julho de 1959 por não ter conseguido resistir aos efeitos do álcool e das drogas e deixou uma autobiografia intitulada “Lady sings the blues”
Um dos seus maiores êxitos foi a canção “Strange Fruits” escrita por um professor judeu que ao ver uma foto de negros enforcados e pendurados nas árvores por brancos racistas, baloiçando como se fossem frutos horrendos, resolveu escrever uma canção de protesto denunciando a opressão exercida sobre os negros dos EUA.
Conta-se que Billie Holiday chorava sempre que a cantava, também ela perseguida pela cor da sua pele.

Aqui fica o registo de uma das suas interpretações.

2007-09-10

A visita

Ainda estava naquela indolência de deixar passar os minutos, as horas, a olhar para tudo como se o tempo tivesse parado e não houvesse nada urgente para fazer quando fui surpreendida pelo ciciar de uma sombra, um sopro quase etéreo, uma sensação estranhamente indefinida, arrastando a incerteza que algo tivesse acontecido. Alheei-me da leitura que fazia e fiquei suspensa esperando que alguma coisa se repetisse. Passaram uns segundos e de novo a sombra, sim porque foi uma sombra que perpassou por mim, volteando, silenciosa mas pesada. Só podia ser um pássaro, pensei. E de novo sulcou o ar quase roçando o meu rosto. Desta vez consegui segui-lo com os olhos entrando na salinha onde poisou no velho sofá. Fui buscar a máquina fotográfica. Não era nenhum pássaro como poderão ver na foto, mas sim um surpreendente morcego (para mim são sempre surpreendentes estes mamíferos alados). Poderia tentar mais fotos mas o facto de saber que não são cegos e que havia a possibilidade de voar de salto ao assustar-se com a minha aproximação, acrescida da possibilidade de embater na minha cara podendo provocar uma histeria que não me é muito comum, foi perfeitamente dissuasor. Por isso apenas uma foto e já está muito bem.
 
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Tentei descobrir de que espécie seria mas foi completamente impossível. De asas abertas talvez atingisse a envergadura de uns 15 a 20 cm. Pedi ajuda mas, com uma foto tão limitada, também ninguém o conseguiu fazer. Abri a janela, acendi a luz no exterior e deixei-o sozinho. Dali a pouco ao entrar cautelosamente e com as mãos à frente da cara, percebi que ele já se tinha orientado seguindo o seu caminho.
Os morcegos existem há mais de 40 milhões de anos, podem viver entre 10 a 30 anos conforme as espécies e constituem bandos mais ou menos numerosos com comportamentos muito curiosos. Uma das coisas que nos surpreende é a forma de dormir pendurados de cabeça para baixo. Algumas teorias defendem que isso se deve ao facto de terem os dedos demasiadamente grandes das patas dianteiras, as que se transformaram em duas membranas funcionando como asas. Outras defendem que é pelo facto de terem patas traseiras tão pequenas e subdesenvolvidas que não suportam o peso sobre elas, embora aguentem a suspensão. E outras ainda pelo facto de ser mais fácil iniciarem o voo a partir desta posição uma vez que dificilmente conseguem voar a partir do chão pela falta de impulso das suas asas. Para ficarem suspensos de cabeça para baixo, não necessitam de nenhum esforço adicional. O próprio peso do corpo força a fechar os tendões que estão ligados às garras, não precisando de contrair nenhum músculo, por isso não cairá caso morra nessa posição :)) Quando quiser iniciar o voo é que necessitará de movimentar alguns músculos que abrirão as suas garras. Todos sabemos que se orientam nas suas caçadas nocturnas através de um sistema de ecolocação que consiste na localização das suas presas através dos ecos que recebem depois de emitirem ultra-sons pela boca ou pelo nariz e daí pensar-se que seriam cegos. Mas alguns até têm uma visão excelente. Normalmente têm só uma cria cuja gestação leva entre 2 a 7 meses conforme a espécie e são amamentadas com o leite materno. Caso haja o risco da cria nascer num período em que os alimentos sejam demasiado escassos, conseguem interromper o crescimento embrionário, para poderem hibernar e garantirem que o nascimento ocorra numa altura em que o alimento seja mais abundante. Nos primeiros dias, as crias são transportadas pelas mães nas saídas nocturnas, no saco interfemoral. Quando começam a ficar pesadas passam a ficar numa espécie de creche onde se juntam todos os bebés do bando. No regresso da caçada, as mães conseguem localizar os sinais sonoros dos seus filhotes entre milhares. No tempo frio, enrolam-se nas asas para se manterem quentes. Conta-se também que quando um morcego adoece e não pode sair para caçar, outros elementos do mesmo bando encarregam-se de obter comida para ele. Existem cerca de 1.000 espécies em todo o mundo e quase 30 em Portugal, a maioria em vias de extinção ou em risco. Os seus alimentos são diferentes de espécie para espécie, havendo os que comem insectos (um bando consegue devorar toneladas de insectos durante um ano, sendo óptimos para controle de pragas), os que comem néctar e pólen (importantes para a polinização das flores nocturnas), os que comem fruta (responsáveis pelo reflorestamento de algumas áreas através das sementes que caem com os seus excrementos), os que comem aves e pequenos mamíferos, incluindo morcegos de outras espécies, os que comem peixes e crustáceos e outros que se alimentam de sangue (apenas 3 espécies e nenhuma em Portugal).

E já agora conto-vos uma pequena história: Quando era menina, um amigo ofereceu-me um morcego preto, já morto. Podem estranhar a oferta mas eram outros tempos e tudo era divertido. Com o animal na mão – e sem pensar nas várias doenças com que me poderia infectar só pelo facto de o manusear sem luvas – resolvi embalsamá-lo. Tinha lido um pequeno livro sobre esta técnica e embora não tivesse nem instrumentos nem produtos necessários para o fazer, ainda assim, na minha ligeireza mental de adolescente, resolvi meter mãos à obra. Abri-o de lado com uma lâmina de barbear Nacet, com uma pinça puxei para fora todas as vísceras, lavei-o por dentro com água e sal, depois enchi-o com bolinhas de algodão que modificaram um pouco o formato inicial do seu corpo. No fim de tudo isto, cosi-o. Tirei-lhe os olhos e no seu lugar coloquei duas pequenas bolinhas de vidro de um velho ursinho de peluche. Procurei uma tábua envernizada que estava esquecida no quintal e coloquei-o em cima dela, de asas abertas, presas com preguinhos pequenos. Podem não acreditar mas ficou bonito.
E tudo ficaria por aqui se não entendesse que o deveria oferecer à minha escola para o colocarem na vitrina das ciências naturais. Mostrei-o ao meu professor de Português que era também o director da escola e que ficou tão encantado com o meu trabalho que foi logo colocá-lo na tal vitrina ao lado de outros pequenos animais metidos em frascos com formol. Foi um dos meus grandes sucessos na escola. Toda a gente parava para admirar o morcego de asas abertas até que a curiosidade esmoreceu e o morcego foi caindo no esquecimento. Meses mais tarde fui rever o meu trabalho. Estava esticado como eu o deixara mas com uma aparência um bocado estranha. Os olhos de vidro tinham-se afundado na cabeça, o pêlo outrora brilhante estava baço, o corpo tinha perdido a graça anterior e reparei numa aguadilha estranha que escorria manchando a tábua. Percebi que quando abrissem a vitrina deveria soltar-se um cheiro nauseabundo que iria destruir definitivamente o prestígio que eu adquirira. Felizmente era o último dia em que iria frequentar aquela escola.

2007-08-29

É só por um bocadinho

Não estamos de férias. Estamos apenas a gozar o prazer de estarmos num período mais calmo e sem grandes preocupações. Regressamos muito em breve
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2007-08-15

Agosto e o ruibarbo

O facto de termos a casa cheia de gente, a criançada barulhenta e traquinas, os serões com montes de histórias para ouvir e contar, a permanência mais longa na cozinha experimentando pitéus, pratos novos, doces diversos no meio de risadas que se soltam daqui e dali, faz com que o mês de Agosto seja sempre muito divertido e enriquecedor com tanta experiência nova.

Enquanto pensamos se devemos fazer um post sobre a festa do pepino, vamos explicar-vos como se faz um doce rápido de ruibarbo. Não há pesos nem medidas.. é tudo feito “a olho”.,

Primeiro a apresentação da planta de ruibarbo com as suas grandes folhas no centro da foto
 
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Escolheram-se as folhas com melhores caules
 
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Depois descascaram-se os talos
 
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Aproveitou-se o momento para se dar a provar aos mais pequenos que parece não terem ficado grandes clientes desta fase
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A seguir partiram-se em pedaços e deitou-se açúcar (passe a publicidade)…
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… um pequeno gole de água…
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… e deixou-se ferver. Os pedaços de ruibarbo foram deitando mais líquido e desfazendo-se aos poucos.
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No final ficou com este aspecto
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E já havia gulosos apressados para molhar o pão no doce
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Atenção que o tipo de confecção descrito aqui não é o de um doce para ser guardado muito tempo. A intenção é a de ser comido na altura, quentinho ou frio conforme o gosto. Mas pode-se guardar no frigorífico por algumas semanas. Espero que gostem porque tem um leve toque de acidez que é uma delícia. Os nossos agradecimentos à Lieve por nos ter preparado um lanche diferente com sabor e aroma aos campos da Bélgica.

2007-07-28

O sorriso da Albizia

Ao consultarmos um livro com fotos de árvores de jardim, ficámos rendidos a uma belíssima Albizia julibrissin, também conhecida por Acácia-de-Constantinopla ou Árvore-da-Seda. Não descansámos enquanto não comprámos uma jovem árvore que plantámos no relvado. Ficou meia esquecida e foi crescendo modestamente, sem exigir tratamento nenhum especial. Um dia ficámos intrigados ao vermos uma pena rosada que se encontrava presa na folhagem. Que pássaro teria penas cor-de-rosa? E ao aproximarmo-nos pudemos constatar que não se tratava de uma pena, mas sim de uma frágil flor, a primeira, que a acácia nos oferecia. Tornou-se numa árvore adulta mimoseando-nos nestes últimos anos com uma floração muito abundante, o que nos dá um enorme prazer. A madeira é muito macia e os ramos partem-se facilmente se sujeitos ao peso dos garotos nas suas brincadeiras e tropelias.
 
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Tudo nesta árvore é gracioso: o porte, a folhagem idêntica à dos fetos, as flores de perfume suave, compostas por tufos de fios de seda rosados e cremes, de uma delicadeza extraordinária.
Pertence à extensa família das Leguminosas e à divisão das Mimosoideae, tal como a acácia-mimosa. Começámos a ficar um pouco apreensivos ao vermos surgir algumas novas acácias nos canteiros e no próprio relvado. Lemos mais tarde o post do Pedro na Sombra Verde que informa não estar a Acácia de Constantinopla referenciada como invasora, embora o seja nos Estados Unidos da América, nos estados do Sudeste onde foi introduzida no séc. XVIII. Vamos ver como é que as coisas evoluem..


Entretanto enquanto escrevíamos este post, recebemos um mail com várias fotos de bonsais. Uma delas parecia ser mesmo de uma albizia julibrissin o que nos deu uma tristeza enorme. Só quem não nos conhece é que pode pensar que temos algum prazer perante o espectáculo de um bonsai. Não conseguimos suportar a contemplação de árvores de grande porte condenadas à miniaturização em que o grande feito é torná-la o mais minúscula possível. Ver um bonsai dá-nos uma sensação de angústia e claustrofobia. Não conseguimos sentir a obra de arte, mas sim o acto em que se sacrifica a árvore, condenada a viver num vaso ridículo, ainda que a receber atenções extremas com grande frequência. Por incapacidade nossa, não conseguimos acompanhar o misticismo que dizem envolver o bonsai e não conseguimos evitar o espanto quando ouvimos dizer que a “arte” necessária para fazer um bonsai exige um grande amor pelas plantas e o respeito pela natureza. Aos nossos amigos que são apaixonados por esta técnica (e que já conhecem sobejamente este nosso discurso) diremos, mais uma vez, que para nós, o amor e o respeito pela Natureza são completamente estranhos a este tipo de práticas.


Aqui fica outra foto da nossa Albizia, uma árvore feliz

 
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2007-07-08

O Monstro de Fogo

Nestes últimos dias de intenso calor, não conseguimos evitar a preocupação de virmos a sofrer novamente a devastação dos incêndios.
A primeira vez que deparámos com uma calamidade destas, estávamos completamente desprevenidos. Vimos, uma hora antes, uma coluna de fumo negro ao longe e sem nos dar tempo a pensar como agir, assomou à nossa porta, entrando e devastando mais de metade da floresta. Dezenas de vizinhos apareceram a correr com as caras tapadas com lenços sujos de cinza, amarrados atrás das orelhas e munidos com o que havia à mão: moto-serras, enxadas, ramos de árvore, etc. Todos eles, assim como o meu marido e os filhos entravam naquela cortina negra e desapareciam deixando-nos numa angústia atroz. Desesperada por não saber o que estava a acontecer fora das nossas vistas, entrei também naquele inferno de chamas e fumo negro.
Lá dentro, os gritos dos homens que orientavam outros, tinham um soar diferente e estranho. A luz do dia desaparecera para dar lugar a uma luminosidade irreal. O ar que se respirava era insuficiente. O calor era insuportável.
Dirigi-me com dificuldade a um vulto e, entre lágrimas, balbuciei-lhe para desistirem... que deixassem arder... que não queria ver ninguém morrer ali...
O vulto pôs-me a mão no ombro e gritou para sair. Que eles sabiam o que estavam a fazer e que ajudaria muito se fosse para junto da casa e estivesse atenta às fagulhas que podiam dar origem a novos incêndios.
As chamas altas dilaceravam as pobres árvores que gemiam, deixando cair os ramos incandescentes no chão abrasador. O fogo estacou diante de mim tentando seduzir-me na sua resplandecência. Mirámo-nos olhos nos olhos. De repente deu um urro, um urro animalesco e saltou por cima das copas dos pinheiros, começando a devorar tudo atrás de nós, cercando-nos com mãos de chamas. O vulto, que nunca cheguei a saber de quem era, agarrou-me por um braço e arrastou-me com ele conseguindo fugir por entre as árvores transformadas em tochas. Os pêlos dos braços, as sobrancelhas, os cabelos, encolheram-se e encaracolaram-se crespos, queimados pelo calor intenso. O pensamento de que poderíamos ficar ali estendidos a qualquer momento, perseguiu-me durante a fuga em que fui chocando com outros corpos meio cegos que também tentavam desesperadamente sair daquela armadilha. Felizmente todos conseguimos sair ilesos.
Quando recuperei desses momentos de terror, segui o conselho e com uma mangueira na mão, perto de casa, fui afogando as fagulhas que mal caíam começavam logo a morder fosse o que fosse. O fogo arrastava o vento consigo e o vento ajudava o fogo a mudar de direcção, ora esquivando-se, ora encurralando, como no jogo do gato e do rato
Foi um dia de aflição, de pânico, de impotência, de raiva!
À noite, o incêndio estava extinto, diziam… mas os buracos denunciadores das árvores ausentes, chispavam com o vento e reacendiam pequenas fogueiras aqui e ali como se houvesse ainda alguma coisa para devorar. De madrugada ainda transportavamos, completamente exaustos, vasilhas com água e vertíamos dentro desses buracos de fogo que conseguia resistir-nos.
Os dias seguintes foram de desolação ao ver a quantidade de árvores desaparecidas ou completamente negras e sem vida. Coelhos mortos e quase irreconhecíveis. No terreno ao lado, um javali jazia numa posição estranha.
A partir dessa altura, passámos a ter mais preocupação com a limpeza do terreno: lavrar uma faixa em toda a volta, junto à vedação com uns 8 metros de largura; limpar todo o mato seco ou verde dentro da quinta; pedir licença (por vezes sem ela por não se saber a quem pertencem alguns terrenos) e limpar também os restos de mato pelo lado de fora; substituir por carvalhos, sobreiros e outras, os pinheiros e eucaliptos mortos; ter pontos de água em locais mais castigados pelo fogo e mangueiras iguais às dos bombeiros, resistentes ao calor das chamas e preparadas para molharem a pessoa que as maneja, refrescando-a e protegendo-a do ambiente intensamente quente.
O próximo passo é adaptarmos um jipe velho para poder transportar água até às zonas onde as mangueiras não conseguem chegar.
Passada uma semana deste grande incêndio, vi uma pequena coluna de fumo a sair dum monte de terra onde tinha andado o fogo. Preocupada, agarrei num garrafão de água e fui até lá. Subi o monte e senti os pés quentes. Atirei com a água e levantou-se uma nuvem grossa de vapor. Percebi que o fogo continuava a desenvolver-se por baixo do chão, lentamente, teimosamente, procurando alguma coisa que o animasse a sair de novo. Com as solas dos ténis meias derretidas e a colarem-se ao chão, levei uma mangueira até lá e passei a tarde a encharcá-lo, a tentar exterminá-lo. E consegui.
Há 2 anos, com a quinta limpa daquilo que nos parecia combustível, o fogo conseguiu arrastar-se por 20 Km até chegar aqui. Queria ajustar contas connosco. Desta vez entendi-o bem. Apareceu à nossa beira, soberbo, cheio de força, como um gigante de poder imenso.
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Na foto podem ver a sua magnificência, a diabólica forma como se apresentou diante de nós. A casinha que está à direita é uma eira que todos pensávamos que iria desaparecer mas que felizmente conseguiu-se proteger mantendo-se tão branca como está na foto. Do lado esquerdo consegue-se ver um telhado por entre as árvores que é o estábulo onde se guardavam alguns animais e também uma centena de fardos de palha que foram empapados em água para evitar a acção das fagulhas.
Nós já o esperávamos com o coração apertado, o estômago contorcido mas decididos na contenda. Tínhamos as mangueiras estendidas, zonas alagadas, a ajuda de uma dezena de pessoas que aqui se encontravam para um almoço de família e pouco depois a vinda de dezenas e dezenas de vizinhos, sempre generosos, preparados para o que desse e viesse.
As terras lavradas pouco antes, tinham algum restolho que embora baixo foi o suficiente para permitir que ele se arrastasse como um verme e atingisse a zona de pinhais. Onde não conseguiu chegar arrastando-se, ergueu-se e saltou de copa em copa, rugindo como um monstro feroz. O vento ajudava-o na façanha.
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Foi outra luta enraivecida. Os homens combatendo as chamas e as mulheres na retaguarda, protegendo as zonas menos perigosas. Estávamos constantemente a mudar de local os animais aterrorizados, conforme a evolução da situação. A égua e a burra corriam em pânico de um lado para o outro com pequenas chamas sobre o pêlo que se ateavam mais com a correria e que eram provenientes de chispas que caíam a arder em cima delas, felizmente sem perigo. Quando conseguíamos enfraquecer o fogo numa zona, logo se fortalecia noutra, qual Hefesto sempre renascido. Felizmente as mangueiras em zonas estratégicas evitaram o pior. Nem as casas, nem os animais foram prejudicados. A meio da noite, a fera desistia da peleja, mudando de rumo e caminhando para outro povoado, ainda que debilitada e cheia de mazelas. Entretanto deixou uma série de bocas rosnando e chispando nos buracos que nós enchíamos de água, enfraquecendo-as até conseguirmos eliminá-las.
No dia seguinte o mesmo espectáculo consternador. Um cheiro a cinzas e a morte.
Mas sabemos que ele vai tentar de novo. Não vai desistir de avançar na sua destruição. Assim o desleixo e os interesses mesquinhos dos homens o permitam!

2007-06-26

Vermelhos resplandecentes

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Aproveitámos estes últimos dias sem chover para colhermos alguns frutos. Começámos pelos pêssegos de S. João que já estão a abandonar a árvore-mãe fazendo as delícias dos ouriços-caixeiros nos seus piqueniques nocturnos. Depois dos pêssegos seguiram-se os morangos que têm um perfume e sabor deliciosos. Já nos íamos embora quando reparámos na groselheira que dava nas vistas com as suas bagas faiscando ao sol da tarde.
Preparámos um prato para ir à mesa e ficou tão bonito que não resistimos a tirar uma foto para vos mostrar.
A maioria dos pêssegos vão ser comidos ao natural, outros vão ser cortados aos bocados e postos na máquina de sumos com leite e mel, fazendo um delicioso batido para o pequeno almoço ou lanche. Outros ainda depois de cortados em pedaços vão ser mergulhados num bom vinho tinto adoçado com açúcar amarelo (tem que se deixar embebedar os pêssegos por algumas horas). E se tivermos tempo e paciência talvez ainda nos aventuremos na compota e no licor
Os morangos serão comidos ao natural, servidos em batidos feitos da mesma forma como os de pêssego, ou mergulhados em chantilly, ou em iogurte, ou em vinho do Porto ou em chocolate derretido (huummm). Não serão suficientes para o doce que é magnífico e ainda menos para o licor que felizmente ainda temos do ano passado, pela simples razão de nem sempre ir à mesa pôr o ponto final numa boa refeição.
Agora o busílis eram as bagas de groselha. Que fazer com elas? Os batidos entraram logo na lista. Devem ser tão bons quanto os de framboesa que este ano não temos, devido ao falecimento do framboeseiro. Como nos disse o Filipe “Comer a groselha em estado natural, é uma bela maneira de não gostar de groselha, a maior parte é realmente muito ácida, tem que se deixar macerar em açúcar ou então fazer sumos. Tem um alto teor em vitamina C. Em compota também resulta muito bem”
Portanto restava macerá-las em açúcar já que eram poucas para compota.
Um amigo falou-me entretanto da cidade francesa Bar-le-Duc que ao que parece tem orgulho de fabricar a melhor geleia de groselha do mundo sendo servida desde o séc. XIV nas mesas mais distintas e exigentes, tendo um preço proibitivo.
Ainda hoje preparam as bagas de groselha da mesma maneira artesanal, extraindo as sementes com o bico de uma pena de pato ou de ganso, sem perderem uma gotinha de sumo. São mulheres especializadas neste trabalho chamadas “épépineuses” que conseguem preparar um quilo de bagas ao fim de 3 horas de trabalho minucioso mas veloz.

Quando voltávamos para casa com pouca luz do dia, reparámos numas coisinhas minúsculas que saltavam diante dos nossos pés. Eram sapinhos bebés às dezenas… às centenas! A partir dali mal conseguíamos caminhar, apavorados com a possibilidade de esmagarmos aquelas simpáticas criaturas. Aproveitámos e tirámos também uma foto a um dos sapinhos que depois da sessão fotográfica foi de novo colocado no mesmo local de onde o tínhamos recolhido.

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2007-06-08

Mudando de assunto...

Este fim de semana estivemos a rever o filme “Farinelli” de Gerard Corbiau que conta a vida do célebre cantor castrado baptizado com o nome de Carlo Broschi, nascido em Andria-Nápoles em1705 e tendo morrido em Bolonha em 1782.
Embora muitos estudiosos ficassem decepcionados com o filme por entenderem que a aparência do Farinelli seria muito diferente da do actor Stefano Dionisi e, que ao contrário da maioria dos cantores castrados com sucesso, seria uma pessoa muito humilde, com uma postura diferente da representada e sem interesse pelo sexo, vale a pena ver o filme que nos dá uma ideia muito aproximada do ideal estético da época barroca.
A castração já era praticada na Antiguidade por povos vitoriosos para evitar a reprodução dos inimigos capturados, em alguns cultos pagãos que exigiam a auto-emasculação dos seus sacerdotes, como punição por crimes de violação, no mundo árabe que se servia dos eunucos para guarda das mulheres do sultão, pelo Império bizantino utilizando-os nos cânticos das igrejas, etc
Perante a proibição pelo Vaticano das mulheres cantarem no coro sacro, seguindo à letra uma epístola de S. Paulo que diz que as mulheres devem permanecer em silêncio na igreja, houve necessidade de resolver a falta de vozes agudas que não era totalmente preenchida com as vozes das crianças com menos vigor por não terem um corpo maduro, pelo pouco tempo que conseguiam mantê-la e pela falta de expressividade impossível de se manifestar nestas idades.
A solução encontrada foi a de mutilar infelizes rapazinhos entre os 7 e os 11 anos, de forma a evitar a puberdade e assim manterem o timbre de voz.
No período compreendido entre os séculos XVII e XVIII, fizeram-se cerca de 4.000 castrações/ano só em Itália que via nos castrados também um produto de exportação.
Muitas famílias pobres e com uma prole numerosa aceitavam a castração de um dos seus filhos, quando o mestre de capela achava que a criança tinha uma voz promissora, tentando libertá-lo de uma vida de miséria ao mesmo tempo que poderiam vir a receber rendas por conta dos ganhos do futuro cantor.
Mas a grande maioria das crianças castradas, perdia-se no anonimato, numa vida infeliz plena de complexos de inferioridade e de fracasso, perdendo mesmo a voz ou cantando em pequenos coros de igrejas locais.
Segundo algumas estimativas, apenas 10 a 15% das crianças castradas conseguiam subsistir à custa da sua voz. E destas, apenas 1% é que atingia o sucesso.
Estas cirurgias eram desempenhadas mais frequentemente pelos barbeiros da terra e podemos facilmente imaginar as condições em que eram feitas.
Para anestesia usava-se uma bebida de ópio (por vezes fatal devido a uma dosagem demasiadamente elevada) ou então pressionando as carótidas de forma a deixar a criança inconsciente. A imersão em leite facilitava o amolecimento dos tecidos e a água gelada adormecia um pouco mais a sensação de dor além de evitar as grandes hemorragias.
A intervenção podia consistir simplesmente no esmagamento dos testículos até os romper, não sendo necessário nenhum golpe cirúrgico, no corte dos cordões espermáticos originando o atrofiamento dos testículos ou extraindo estes por uma incisão feita na virilha, cortados com uma faca e ligando seguidamente os canais. Este último processo dava origem a uma maior mortandade devido a graves hemorragias e septicemias.
A ablação dos testículos impedia a puberdade e por isso o desenvolvimento normal da laringe masculina que não descia, mantendo o registo normal de uma voz infantil. Dava origem também ao desenvolvimento do tórax, criando uma apreciável caixa de ressonância com cordas vocais de pequena dimensão.
Mas as transformações não eram apenas na voz: Os castrados tinham uma estatura superior à normal uma vez que as cartilagens continuavam a funcionar por mais tempo dando origem ao aumento do tamanho dos ossos. Não tinham maçã-de-adão. A obesidade depositava-se tal como no corpo das mulheres. Não tinham barba mas o cabelo era forte e espesso. A pilosidade no corpo era quase inexistente, desenvolvendo-se mais na região púbica. Podiam ter erecções e até emissão de plasma seminal uma vez que mantinham outras glândulas em funcionamento, mas obviamente sem espermatozóides.
Aqueles que conseguiam recuperar da cirurgia, iam para conservatórios durante 10 anos onde trabalhavam a voz de uma forma intensíssima e com uma disciplina extremamente rigorosa.
A Igreja não permitia as castrações, uma vez que havia uma lei do direito canónico e civil que proibia a amputação deliberada de qualquer parte do corpo, mas paradoxalmente, aceitava os castrados para cantarem nos seus coros. O próprio Papa Clemente VIII autorizava a castração desde que fosse feita para a glória de Deus.
Normalmente não se confessava a verdadeira razão que iria alterar o desenvolvimento físico do adolescente. A desculpa era quase sempre uma doença grave, um acidente, uma hérnia, qualquer pretexto acobertado pelo médico, evitando a excomunhão, convencendo a sociedade local e até o próprio que a maior parte das vezes desconhecia o porquê do seu problema físico.
O gosto pelo virtuosismo, fazia com que houvesse um fascínio generalizado pelos cantores castrados que tinham uma voz assexuada a que chamavam “angelical” e que interpretavam personagens de deuses e heróis, tanto em papéis masculinos como em femininos.
Hoje é difícil saber como seria realmente o tipo de voz de um cantor castrado. Existem gravações do último castrado Alessandro Moreschi (1858-1922) que não são agradáveis de ouvir devido ao facto do cantor já não estar na sua melhor forma quando a técnica permitiu as gravações e também devido à precariedade da mesma que originava muitas distorções no som
No filme Farinelli conseguiu-se por digitalização, fundir as vozes do contratenor Derek Lee Ragin com a da soprano Ewa Mallas-Godlewska para atingir uma tessitura de três oitavas, impossível de se conseguir actualmente de uma forma natural mas que ao que parece era possível em alguns castrados. Muitas das peças escritas na época para eles, são impossíveis de se cantar pelos cantores actuais. Conta-se que Farinelli conseguia emitir 250 notas num minuto e sem respirar. Conta-se também que numa actuação em Londres, os músicos da orquestra não conseguiam concentrar-se nas suas partituras, impressionados com o seu extraordinário virtuosismo
Deixamos aqui um pequeno registo do filme Farinelli no momento em que Handel vingativamente o esclarece sobre a sua castração (momento também duvidoso), seguindo-se a interpretação da ária “Lascia Ch'io Pianga” (Deixa que eu chore) da ópera Rinaldo composta pelo próprio Handel

Não confundir os cantores castrados com os contratenores que têm um timbre muito parecido com o das mulheres, graças a uma técnica especial na emissão da voz. Já existiam no período barroco mas o fascínio na época pela voz dos castrados não permitia o sucesso daqueles.
Em 1902, o Papa Leão XIII proíbe definitivamente a presença dos castrados no canto sacro.
As árias escritas na época para cantores castrados, são hoje cantados por contratenores ou sopranistas (homens) ou mezzo sopranos (mulheres)
Uma tarde em que estávamos a conversar sobre os cantores castrados, nem nos apercebemos da presença do Pedrinho, um menino com 10 anos que nos ouvia atentamente. A seguir estivemos a ouvir um Cd de árias antigas interpretadas pela Cecília Bartoli e fomos surpreendidos com a sua pergunta:
- E a este? Também lhe arrancaram os tomates?!
Para finalizar, fica aqui mais um vídeo que nos deixa a pensar no que poderia suceder a esta criança se tivesse vivido na época atrás referida



Consultas: “História dos Castrados” de Patrick Barbier; http://www.kindsein.com/es/8/educacion/227/?ST1=Full_text&ST_T1=Article&ST_PS1=6&ST_AS1=0&ST_LS1=0&ST_max=1
http://marianmus.wordpress.com/2007/04/03/contratenores-y-castrati/
http://atacada.wordpress.com/2007/01/21/farinelli-il-castrato/
http://www.npdi.dcc.ufmg.br/workshop/wti2001/pdf/nazario.pdf
http://www.geocities.com/operacalli/i_castrati.htm


2007-05-10

Será que vale a pena?

Se algum de vós ainda tem a ideia de que viver no campo é mais saudável, evita o stress e é mais económico, desiluda-se porque não há nada de mais erróneo, pelo menos quando também se convive com animais de estimação.
Para entenderem melhor a razão de ser desta afirmação, iremos vos pôr ao corrente do que tem acontecido aqui na quinta de há 2 meses a esta parte:
A nossa pneumonia desapareceu para dar lugar a uma gripe que teimosamente não nos abandona, deixando-nos fatigados, tensos e sem disposição para nada. Pensamos que a responsabilidade cabe a estas súbitas mudanças climatéricas.
Entretanto, a potra, filha da Joaninha, morreu no dia seguinte ao seu nascimento. Aqui a vemos umas 5 horas depois de vir ao mundo. Só então é que se conseguiu pôr de pé, o que já indiciava que alguma coisa não estava a ir bem. Nas primeiras horas teve que ser amamentada a biberão com leite ordenhado da mãe até conseguir manter-se de pé. Foi examinada pelo veterinário que não gostou muito da lentidão de todo este processo. Só à noitinha é que conseguiu orientar-se para mamar directamente das tetas. Mas, de qualquer forma, a morte no dia seguinte apanhou-nos completamente desprevenidos. Foi o caseiro que nos avisou, lavado em lágrimas, e ainda assistimos aos últimos momentos do animal tentando evitar o inevitável.
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… quase de seguida, a morte súbita do Tomás, o pavão. Reparámos que fazia muito ruído e que estava numa aflição para respirar. Ainda abrimos o bico para ver se teria a traqueia obstruída, o que não era o caso. Como estávamos de partida para o veterinário, aproveitámos e também o preparámos para ser visto. Mas, ainda nem tínhamos saído da quinta e já o levávamos morto. Pedimos uma autópsia e a causa da morte teria sido uma septicemia, coisa quase inacreditável uma vez que o bicho andava esperto e a comer normalmente.

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… entretanto o Odin, um dos nossos cães castro-laboreiros, apareceu com um fiozinho de sangue a sair de uma narina e que teimava em não parar. Fizeram-lhe testes para a leishmaniose (provocada por um mosquito) e para a erliquia (provocada por uma carraça) e o resultado foi positivo para ambas. A primeira não tem cura e é extremamente grave por interferir com o sistema imunitário e não sabemos se será a responsável pelo hipo-tiroidismo que somou agora ao seu quadro clínico, tendo dores no corpo e descontrole muscular o que faz com que tenha um caminhar trémulo e sofrido. Estamos a tentar tudo por tudo para melhorar os sintomas e darmos uma vida ao animal com alguma qualidade.
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Quando os problemas aparecem sucessivamente, não nos dando tempo para recuperar, damos connosco a pensar se vale a pena continuarmos a insistir numa vida que nos dá tanto desgaste físico, emocional e financeiro.
Este post esteve para não ser feito, tal era o desconforto que sentíamos ao escrevê-lo. Mas não é justo falar-vos só das coisas boas ou curiosas que acontecem neste espaço. As nuvens negras também pairam muitas vezes sobre nós.
Mas como continuamos aqui de pedra e cal, depois deste desabafo de quem sente a vida na sua plenitude, vamos continuar o caminho escolhido.
Ora bem, Mariana a pavoa viúva, acabou também por adoecer com uma coriza e uma manhã vimo-la com este aspecto assustador
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Telefonámos a um dos nossos amigos veterinários que aconselhou a operação, dando-nos as necessárias orientações. Respirámos fundo, com aquela sensação já conhecida do que tem que ser tem muita força, pedimos ajuda ao caseiro e metemos mão à obra com direito a reportagem fotográfica para vos mostrar (e também ao médico) a qualidade do nosso trabalho.

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E depois da cirurgia, a paciente Mariana ficou com este belíssimo aspecto:
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Dias depois tornou a piorar. Deixou de comer, caminhava tropegamente, com as asas a arrastarem no chão, inchou-lhe a mesma face e tivemos que a submeter de novo à operação. Agora duas vezes por dia metemos-lhe bolinhas de ração com umas gotas de antibiótico pelo bico abaixo e limpamos o interior da face com betadine para ir sarando de dentro para fora. Passou a ficar dentro da capoeira onde recolhem as galinhas por ser um local mais aquecido. Vamos a ver se tem melhor sorte que os outros. Para já, está com óptimo aspecto, mais forte, voando para se empoleirar mais alto que as companheiras.
A Joaninha também recebeu de novo a visita do namorado e se estiver prenha (o que saberemos depois da próxima ecografia), daqui a um ano terá de novo um filhote
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E assim, mesmo com todos estes desgostos e desilusões continuamos o nosso trabalho, partilhando convosco os bons e maus momentos. Obrigada pela companhia tão amiga com que nos têm brindado

2007-04-25

A voluptuosidade da dama-da-noite

O Cestrum nocturnum, mais conhecido por dama-da-noite é um arbusto que pode atingir os 4 metros, com ramos sinuosos e pendentes e umas modestas florzinhas ligeiramente campanuladas de cor branco-esverdeado formando pequenos cachos. A modéstia das flores é apenas aparente porque ao fechar a tarde e durante toda a noite, as florzinhas abrem e deixam sair um perfume doce e muito intenso.
Conhecemos esta planta há muitos anos, numas férias passadas em Altura-Algarve no jardim da moradia que alugámos. De dia não se dava por ela, mas quando começava a noite, o aroma entrava sorrateiramente pela janela aberta do quarto onde dormíamos e quando nos apercebíamos já estávamos envoltos num perfume denso que nos despertava do sono e da moleza do corpo.
A proprietária da casa ofereceu-nos várias estacas e uma delas desenvolveu-se no nosso pequeno jardim de S. Pedro do Estoril. Cresceu imenso e era sempre com um enorme prazer que sentíamos o seu perfume avançar lentamente, invadindo todo o espaço envolvente nas quentes noites de verão
Mais tarde espetei várias estacas aqui na quinta mas sem nenhum sucesso.
No Verão passado ao vê-la num horto algarvio, trouxe-a envasada. com este ar saudável e com as flores abertas revelando imediatamente que o dia tinha chegado ao fim.
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Manteve-se assim bonita até chegar o Inverno. Mas o frio atingiu valores tais nesta zona que a pobrezinha preparada para os climas tropicais de onde é originária, acabou por “melar” - ainda que recolhida - e ficou entre a vida e a morte. Agora está a dar sinais de querer recuperar.
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Muito recentemente é que soubemos que não aguenta temperaturas inferiores a 5º e neste Inverno descemos muito abaixo dos 0º. Teremos que pensar numa forma de a proteger futuramente.
O facto de só libertar o perfume à noite, não é por se preocupar em criar ambientes sensuais nos quartos de cada um, mas sim para atrair os seus insectos polinizadores que por sinal são nocturnos.
Há muitas pessoas que não apreciam o aroma forte e doce da dama-da-noite, provocando-lhes até dores de cabeça. Felizmente não é o nosso caso.
As folhas secas em infusão são usadas para combater a epilepsia mas é preciso ter muito cuidado porque é uma planta altamente tóxica, podendo provocar náuseas, vómitos, alucinações, distúrbios do comportamento, etc
O óleo essencial extraído das suas flores é usado para manter o vigor sexual.
Fizemos uma série de pesquisas ao lermos algures que os antigos costumavam ofertar a dama-da-noite nas homenagens a Vénus mas não conseguimos obter mais informações sobre o assunto.
A palavra perfume deriva do latim “per fumum” que significa “pelo fumo” ou “através do fumo”.
O perfumar seria um acto religioso em que através da combustão de madeiras e de plantas odoríferas, os pedidos e orações subiriam com o fumo até à morada dos deuses.
Mais tarde alguns aromas serviriam para purificar, afastando os demónios e só muito mais tarde é que foram usados de uma forma profana como meio de sedução ou de embelezamento.
Achámos este tema de tal maneira interessante que em breve voltaremos a ele para falarmos sobre os vários processos de recolha de substâncias odoríferas, suas aplicações e a preferência de determinados aromas no evoluir da História.

2007-04-13

A Primavera e o cuco

A Primavera anda um bocado arredia aqui da zona. Ainda não se vêem os campos floridos de amarelo que é a primeira cor a impor-se nesta estação. As manhãs continuam a revelar um fino manto de geada, confundindo as plantas e todos nós.
Entretanto estamos preocupados com o silêncio do cuco. Diz o ditado: A três de Abril o cuco há-de vir e se não vier a oito, está preso ou morto. Ora já estamos a 13!...
O cuco tem o nome científico de Cuculus canorus e pertence à família dos cuculídeos.
Como todos sabem, o cuco europeu não faz ninho, aproveitando os ninhos de outras aves para a postura.
Os ovos são diferentes de indivíduo para indivíduo uma vez que estão preparados para parasitar os ninhos da mesma espécie dos seus pais adoptivos, pondo ovos idênticos aos seus.
A fêmea vai vigiando atentamente a azáfama junto aos ninhos das outras aves e quando se apercebe que se iniciou a postura, aproveita rapidamente uma ausência delas, conseguindo pôr um ovo e eliminar outro (para as contas darem certas) em apenas 10 segundos.
Vai pondo um ovo de 2 em 2 dias em ninhos diferentes até terminar a postura (8 a 12 ovos).
A incubação é muito curta sendo de apenas 12 a 14 dias e assim o cuco nasce normalmente muito antes dos seus companheiros de ninho.
Na foto abaixo pode ver-se um cuco acabado de nascer junto a dois ovos de dimensões muito mais reduzidas.
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O cuco recém-nascido e ainda cego, está preparado para não permitir mais ninguém no ninho. As patas são formadas por 4 dedos, dois na frente e dois atrás que funcionam como garras e tem uma pujança tal que consegue eliminar a concorrência: ovos e pássaros.
Na foto seguinte podemos reparar no esforço hercúleo de um recém-nascido que consegue levantar os ovos para os poder expulsar.
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Por vezes nascem 2 cucos ao mesmo tempo e no mesmo ninho - de ovos postos por 2 fêmeas - e a luta pelo lugar acontece de uma forma muito mais violenta porque ambos são possantes e determinados, podendo ocasionar a morte dos dois por extenuação.
Os ninhos parasitados são sempre de aves insectívoras que é a alimentação base do jovem cuco: insectos, lagartas, aranhas e até sementes se for a alimentação dos pais adoptivos.
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Os mais vitimados são os rouxinóis, ferreirinhas, pegas, carriças, piscos, alvéolas, pardais, andorinhas, etc.
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Se estas pequenas aves tivessem que alimentar além do cuco (que é extremamente voraz) a sua própria prole, não conseguiriam resistir à fadiga.
O cuco é uma ave migratória. Os adultos partem no mês de Julho para a África equatorial onde passam o Inverno. Os jovens partem mais tarde em Agosto, Setembro para as mesmas zonas sem serem guiados pelos pais, nem adoptivos, nem biológicos. Partem de noite, isoladamente, demonstrando uma capacidade inata de orientação.
Para finalizar, podemos dizer que o cuco tem a vantagem de evitar o desenvolvimento exagerado de algumas pragas, alimentando-se também de larvas e crisálidas da processionária.
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E é óptimo para informar as moças solteiras do número de anos que se vão manter sem casar. Para isso basta perguntar o seguinte:
- Cuco da Ribeira, quantos anos me dás de solteira?
Depois contam-se as vezes que ele faz cuc-cuu, um ano por cada vez. É muito simples!

(fotos retiradas do http://www.alrfoto.com/ )

2007-04-02

Adenda ao post anterior

Respondendo ás perguntas que nos têm feito sobre o que sucedeu ao grupo amador de astronomia e missilismo, devo acrescentar o seguinte:
Um dos últimos projectos do grupo foi a construção de um foguete com 1,20m de comprimento e a funcionar com combustível sólido. O projecto acabou por ser boicotado pelo Centro de Estudos Astronáuticos da Mocidade Portuguesa. A Embaixada dos EUA e a própria NASA tinham prometido apoios que acabaram por ser desviados para a Mocidade Portuguesa. Entretanto esta viria a convidar os elementos mais entusiastas do GAAM para trabalharem em conjunto no seu Centro de Estudos. Os elementos do grupo de astronomia conseguiram delicadamente recusar o convite uma vez que não estava nos seus projectos virem a trabalhar com indivíduos da Mocidade Portuguesa, mais conhecidos pelos “piolhos verdes”. Mais tarde, Victor Manuel Castelo e José Manuel Silva foram convidados pelos americanos para completarem os estudos nos EUA o que não foi possível aceitar por ser proibido pelo regime salazarista a ida para o estrangeiro de jovens em idade militar. E aos poucos tudo foi esmorecendo até à extinção do grupo.
Sobre Carlos Bettencourt Faria, consultando um dos links indicados no post abaixo, só posso acrescentar o seguinte:
Nasceu em Lisboa a 13 de Fevereiro de 1924. A sua juventude foi passada em S. Miguel-Açores, numa localidade chamada Ginetes, onde o seu avô era médico. Frequentou o liceu de Ponta Delgada demonstrando muito interesse pela óptica astronómica e tecnologia de rádio. Ainda adolescente foi viver para a Ilha da Madeira com um tio cónego, grande entusiasta de rádio, astronomia e biologia marítima, com quem desenvolveu os seus conhecimentos. Com 27 anos de idade viajou para Angola, onde 6 anos depois fundou o Observatório Astronómico da Mulemba num terreno situado nos arredores de Luanda com uma área de 10.000m2, estando igualmente em preparação a instalação de rádio telescópios, motivada pela fraca expansão da rádio astronomia no mundo. A Associação Astronómica de Angola, fundada em 8/8/64 foi considerada Instituição de Utilidade Pública, podendo assim usufruir de subsídios estatais e privados que foram decisivos para o desenvolvimento e construção de infra-estruturas para a Biblioteca Técnica, Museu da Mulemba, Estação de Satélites, Rádio Astronomia, Estação Solar e Laboratório de Electrónica para o desenvolvimento de equipamentos, fazendo deste complexo, um dos mais importantes do mundo, no género, dando especial relevo à cooperação internacional no rastreio da satélites artificiais e trabalhos astronómicos no âmbito solar.

2007-03-27

O album de recortes

Andarilhar pela casa sem poder sair, obrigou-me a dar uma vista de olhos pelos livros que ainda não li, pelas pastas que aguardam uma pausa para poderem ser organizadas e até por antigos álbuns de fotografias. Descobri um que fiz há muitos anos e onde guardei fotos, cartas, postais, poemas, tudo aquilo que marcou de alguma maneira a minha infância e a minha adolescência. Ao folheá-lo caíram-me 2 recortes do antigo jornal Diário Popular que noticiava a existência do grupo ao qual pertenci e que tinha o nome de GAAM-Grupo Amador de Astronomia e Missilismo.
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Era um pequeno grupo, unido pelo desejo de conseguir lançar foguetes que pudessem transportar e regressar com pequenos animais vivos. Passávamos muitas tardes de domingo em acesas discussões nas reuniões que se faziam na minha casa. A minha função no grupo além de disponibilizar a casa e quintal para o que fosse preciso era a de fornecer os ratos que infestavam a capoeira, tratar da correspondência e da divulgação do grupo, enfim todo um trabalho de secretariado uma vez que não percebia nada de física nem de química. Lembrei-me das experiências feitas no meu quintal, com latas velhas que disparavam no ar com o estrondo de bombas no meio de grande gritaria e assobios, o que fazia os vizinhos virem espreitar à janela, assustados.
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Uma das misturas propulsoras era feita com açúcar e enxofre não me conseguindo lembrar das percentagens. Também recordei a sensação horrível que senti ao visitar um dos elementos do grupo que sofrera um acidente com uma explosão que só não o cegou por acaso e ao entrar no quarto, reconhecer os ratos que oferecera vivos, semanas antes, embalsamados e espetados na parede como decoração. Aqueles não sentiram a glória de terem sido lançados para o espaço
Mas, ao ver as fotografias e reler os recortes, lembrei-me do cientista Bettencourt Faria que tinha construído, quase só pelas próprias mãos um observatório astronómico em Mulemba-Angola, e que aceitou simpaticamente ser padrinho do nosso grupo.

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Eu escrevera-lhe para pedir informações e contactos que nos fossem úteis aqui em Portugal e a partir daí gerou-se uma grande amizade entre nós os dois. Ainda conservo algumas, apenas três, das suas cartas e um postal enviado da Polónia, que são um exemplo da simplicidade dos homens grandes. Um homem que com o seu tempo todo preenchido por mil e uma actividades, ainda arranjava disponibilidade para escrever à máquina longas cartas e procurar cartazes com temas espaciais para enviar a uma miúda com 15 ou 16 anos que ainda andava no mundo a “apanhar bonés”. E sempre que passava por Portugal continental (na altura Angola ainda era uma colónia portuguesa) ia sempre visitar-me, conversar comigo e dar pequenos passeios a pé.
Lamentavelmente, a idade que eu tinha não era propícia ao reconhecimento do valor do homem que me escrevia e visitava.
Ao pesquisar na net encontrei o blog:
http://amateriadotempo.blogspot.com/2006/05/bettencourt-faria-e-o-seu-centro.html do qual tirei alguma informação que publico com a devida autorização do seu autor:
“Carlos Mar Bettencourt Faria, de seu nome completo, foi um autodidacta genial, dotado de um notável dinamismo e de uma enorme capacidade de trabalho. Ergueu com as suas próprias mãos aquilo a que chamou Centro Espacial da Mulemba. Neste Centro, ele deu largas à sua paixão pela exploração do Espaço, pela Rádio e pela Astronomia, construindo aparelhos de detecção remota, telescópios, antenas, etc. Dada a sua fraca capacidade económica, ele não podia dar-se ao luxo de comprar as coisas já feitas; fazia-as ele mesmo, aproveitando materiais usados, como foi o caso das agulhas de que falei acima. Mas não eram só agulhas de seringas que ele aproveitava; por exemplo, as grandes antenas que ele construiu foram feitas com sucata ferroviária.
Num tempo em que a Terra ainda não estava rodeada por satélites de comunicações, a NASA tinha necessidade de dispor de uma rede de colaboradores espalhados pelo mundo, que recolhessem os dados enviados pelos satélites e que estabelecessem contacto com os astronautas, servindo de "ponte" entre o Espaço e a sede da NASA. O Centro Espacial da Mulemba, em Angola, era o único observatório em todo o continente africano a fazer essa "ponte". Nenhum outro existia em África.
Para tal, Bettencourt Faria dispunha de um estúdio, pejado de aparelhagem, onde ele recebia e descodificava os sinais enviados pelos satélites e onde entrava em contacto com os astronautas. Tive a oportunidade de ouvir uma gravação de uma conversa que ele teve com o astronauta Neil Armstrong na Lua.
Era desse mesmo estúdio que Bettencourt Faria falava para o público, através de um programa de rádio do malogrado Sebastião Coelho (falecido no ano passado na Argentina), explicando de modo simples e claro o que se ia passando no campo da exploração espacial. Neste aspecto, ele fazia, em Angola, o mesmo que fazia em Portugal um outro notável autodidacta, inventor e apaixonado pelo Espaço, chamado Eurico da Fonseca. Ouvir um deles era quase o mesmo que ouvir o outro.
Não se pense, porém, que Bettencourt Faria se interessava apenas pelo Espaço e pela Astronomia. Os seus interesses eram muitos e variados. Fez investigação etnológica, tendo publicado livros sobre usos e costumes tradicionais de Angola. Era um profundo conhecedor de conchas marinhas, de que possuía uma notável colecção. Inventou máquinas de diversos tipos, entre as quais uma espécie de helicóptero individual, com o qual, aliás, sofreu um acidente e partiu vários ossos. Pintava quadros. Tocava piano. Era radioamador. Apetece perguntar onde é que aquele homem arranjava tempo para poder fazer tantas coisas diferentes.…”


Também na minha casa, várias vezes tocou piano para mim, dedicando-me as suas composições, dizendo que aprendera a tocar sozinho e que nunca tivera uma aula de música.
Não consigo resistir a publicar aqui um excerto de uma das suas cartas:
“O que diferencia as pessoas não é ser bonito ou feio, não é ser rico ou pobre, não é ser católico ou protestante, inteligente de mais ou de menos. É uma simples coisinha que muita gente não atina: a capacidade de determinação, de persistência, aquela espécie de febre que não desce no termómetro quando encontra pela frente as dificuldades inerentes e imediatas a quem se quer guindar a um muro muito alto. Não faltará quem puxe as pernas, quem atire pedras, quem ponha cacos de vidro de garrafa das mais diversas origens no topo do muro. Mas sacudindo as pernas, cortando as mãos e os braços, suando pelo pescoço abaixo, que alegria é chegar ao outro lado, querida Ana! E não é o dinheiro, não são as glórias, nada, a não ser a incomensurável satisfação de ter chegado - onde os outros não chegaram - pelos seus próprios meios! Toda a vida fui um solitário (ainda hoje o sou e muito mais penoso é à medida que os anos passam) Nunca tive ninguém que me auxiliasse, e no entanto o que não tenho feito sozinho! É caso para envaidecer? Claro que não! É caso para eu sentir, sempre sozinho, uma felicidade tão grande que até às vezes me dá vontade de chorar!”
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De pesquisa em pesquisa encontrei este link:
http://apaa.online.pt/bettencourt%20faria.pdf, cujo autor é o Luís Filipe Bettencourt Faria, seu sobrinho, e que escreve assim:
Em 1976 o Centro Espacial da Mulemba, com um património de 200 mil contos e com uma reputação e actividades de âmbito internacionais invejáveis, entra numa fase difícil com o advento da Independência de Angola e com a consequente ordem de nacionalização desta instituição. Bettencourt Faria, então com 52 anos, passou algumas semanas numa tristeza profunda. Acusado de espionagem e de ter um arsenal de armas em casa, sendo-lhe confiscadas até as potentes espingardas de ar comprimido de caça submarina, com a sua correspondência e telefone vigiados, a estação de rádio amador CR6 CH selada, pessoal estranho ao serviço a querer saber como tudo funcionava, foi na tarde de domingo de 4 de Julho de 1976, traiçoeiramente degolado ao baixar o vidro do carro, quando cumprimentava o “segurança” de serviço no portão principal das suas próprias instalações.

2007-03-10

Tentando atrair enxames

Em primeiro lugar vamos ter que esclarecer a razão desta tão grande ausência. Depois de termos passado um largo período a recolher informações para um novo post, a doença bateu-nos à porta sob a forma de uma pneumonia e obrigou-nos a estar quietinhos, abafadinhos e sem disposição para nada.
Ainda mal recuperados mas já em condições para estarmos algum tempo sentados ao computador, resolvemos fazer um post com tema diferente daquele em que trabalhávamos há semanas atrás para vos pôr ao corrente do que entretanto se passou aqui na quinta.
Constatámos com muita tristeza que as nossas 3 colmeias estavam mortas.
Como diz Lars Gustafsson no seu livro A Morte de um Apicultor: “Quando um enxame morre, parece que é como se morresse um animal. É uma personalidade de que sentimos a falta, quase como um cão, ou pelo menos um gato.”
Comprar uma colmeia a funcionar é um bocado dispendioso, sendo os preços aqui na zona na ordem dos 20 a 30 contos.
Entretanto um vizinho quis fazer a seguinte troca connosco: oferecia-nos uma colmeia bem povoada e ainda um pavão com 2 anos se lhe oferecêssemos um casalinho de borregos. Aceitámos a troca e o senhor veio uma manhã buscar os borregos e simpaticamente ofereceu-se para nos ensinar a preparar caixas vazias e cortiços também vazios para captar enxames novos que procurassem um local para estabelecer as novas colónias.
Pudemos verificar que vinham prevenidos para este trabalho trazendo uma panelinha com um líquido endurecido que ao ser aquecido no fogão espalhou no ar um aroma almiscarado, misturado com alecrim, alfazema e também um toque de vinho aquecido que seria vinho branco fabricado sem a adição de nenhum produto químico, segundo nos informaram.
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Esfregaram as caixas e os cortiços por dentro com alecrim, alfazema, rosmaninho e uma erva desconhecida para mim a que chamaram salpor do mato. Depois molharam ramos de alecrim na tal poção mágica e aspergiram a caixa da colmeia e os cortiços.
 
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As frestas laterais dos cortiços que estavam há muitos anos sem uso, foram tapadas com barro tirado à lagoa.
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Depois de estar tudo devidamente preparado, foi só escolher o local que acharam mais de acordo para capturar enxames em deslocação que ao que parece seguem rotas bem determinadas
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Agora é só esperar que algumas obreiras se encantem com tão bonitas e perfumadas casas e levem as restantes obreiras que aguardam suspensas envolvendo as rainhas, a ter a mesma opinião, estabelecendo os seus enxames na colmeia velha e nos cortiços para depois nós transferirmos para colmeias novas que aguardam já limpas no colmeal.
Durante este trabalho pudemos verificar que cada apicultor tem os seus segredos e não é fácil arrancar-lhes toda a informação. Os conhecimentos empíricos misturam-se com lendas e mitos de uma forma fascinante. Por este vizinho ficámos a saber que as abelhas “conhecem” o dono e poupam-no na sua agressividade. Mas, para isso há que ter alguns cuidados como pendurar roupa interior muito suada perto das colmeias para elas reconhecerem o cheiro do seu corpo. E quando a colmeia enxameia, por estar demasiadamente povoada, o enxame sai e fica pendurado num tronco perto da colmeia esperando a vinda do apicultor amigo. Quando este não aparece, então parte para outras zonas.
Mas para não confundirmos os leitores menos conhecedores dos hábitos das abelhas, resolvemos fazer um trabalho que publicámos abaixo deste, onde nos preocupámos em pesquisar várias informações sobre o comportamento das abelhas na colmeia. Esperamos que leiam com o mesmo interesse que sentimos ao escrevê-lo.
À noite chegou a colmeia oferecida que vinha vedada para não haver fuga das abelhas mas ao ser colocada no colmeal foi devidamente aberta para as abelhas de manhã prosseguirem os seus trabalhos, por certo espantadíssimas com a mudança.
Tentaremos ir relatando as várias fases deste processo já que nunca falámos aqui das nossas crestas (colheita do mel) e da centrifugação dos quadros.
Sobre o pavão que já faz parte dos membros da quinta, falaremos futuramente, uma vez que ainda nem o vimos pela proibição de sair de casa, a que ainda estamos sujeitos.

As Abelhas

A técnica de explorar o mel produzido pelas abelhas existe desde 2.400 antes de Cristo. Normalmente era um tipo de pilhagem destruindo completamente o enxame. No séc XIX o apicultor Lorenzo Langstroth desenvolveu as bases da apicultura moderna inventando a colmeia com quadros móveis o que facilitou o seu manejo, melhorou a produção e a extracção do mel.
A abelha é um insecto que pertence à ordem dos himenópteros e à família dos apídeos.

Existem 3 categorias de abelhas: as sociais que são aquelas que vivem em enxames com divisão de trabalhos, separação de castas e que vai ser o tema deste trabalho; as solitárias que constroem ninhos no chão, nas fendas das pedras e árvores e onde a abelha fecundada coloca o ovo em cima de uma quantidade de alimento, fecha o ninho e nunca mais se preocupa com ele; as parasitas que conseguem pôr os seus ovos nas células prontas de outras abelhas deixando que estas se encarreguem do desenvolvimento das larvas ou roubando a outros enxames o material necessário para construirem os seus ninhos.
A abelha comum pertence à espécie Apis mellifera mellifera, mas há a Apis mellifera ligustica (abelha italiana), a Apis mellifera caucásica (abelha caucasiana), a Apis mellifera adansoni (abelha centro-africana) etc. São conhecidas cerca de vinte mil espécies diferentes e até já é distinguida a Apis mellifera ibérica que como o nome indica, uma espécie de abelha mais comum na Península Ibérica.
A colmeia é constituída pela abelha-rainha, obreiras e zangãos
A rainha é a figura mais importante da colmeia, sem a qual esta não tem hipótese de sobrevivência. Mas, ainda que rainha, não tem qualquer função de comando. Após o 5º dia de vida, a rainha começa a fazer voos de reconhecimento e a partir do 9º já está preparada para fazer o voo nupcial, o que fará somente uma vez na vida, saindo da colmeia e sendo fecundada durante o voo por 4 a 8 zangãos que conseguem fertilizá-la, sendo o líquido seminal depositado num saco chamado espermateca que mantém os espermatozóides vivos praticamente durante quase todo o tempo de vida da rainha, 3 a 6 anos. A partir deste momento a sua função principal é a de pôr ovos, 1.500 a 2.000 por dia . Não põe ovos de uma forma casual. As obreiras fabricam os alvéolos de acordo com as necessidades da colmeia e a rainha antes de pôr o ovo tem que inspeccionar o tamanho do alvéolo. Se for mais pequeno é porque se destina à criação de larvas de obreiras e então a rainha mete o seu abdómen no alvéolo e comprime-o de forma a libertar os espermatozóides que irão fecundar o ovo. Se for um alvéolo maior é porque se destina à criação de zângãos e então ela introduz o abdómen mas não comprime a sua espermateca, uma vez que os zangãos nascem de ovos não fecundados. As células reais têm um formato diferente dos hexagonais que formam os favos e localizam-se nos bordos destes. Têm que ser fecundados pela rainha e são depois guardados pelas obreiras para evitar que a rainha mate as futuras rivais. Tem um ferrão liso com o qual localiza os favos onde vai fazer a postura e só o usa como arma nas lutas com outras rainhas, conseguindo injectar veneno sem ficar estropiada como acontece com as obreiras. Uma rainha mal nasce tem o instinto de eliminar as criações reais ainda não nascidas ou tendo um encontro de morte com alguma que tenha nascido ao mesmo tempo. Segrega uma ferormona chamada “substância-de-rainha”que as obreiras recolhem lambendo-a e distribuindo-a depois por todas as outras obreiras criando um ambiente de harmonia dentro da colmeia ao mesmo tempo que impede o desenvolvimento dos órgãos sexuais das obreiras, evitando que sejam reprodutoras. O corpo é maior do que o das obreiras não possuindo as glândulas que as obreiras necessitam para desempenharem as suas funções. Toda a vida é alimentada unicamente com geleia-real
Na colmeia não existe uma divisão de trabalhos mas uma relação entre a idade das obreiras e o trabalho que executam durante a sua curta vida (cerca de 2 meses)
Do 1º dia de vida até ao 3ª dedicam-se à limpeza dos alvéolos, chão e paredes da colmeia. Do 3º dia ao 7º passam a ingerir pólen, mel e água, regurgitando este produto nos alvéolos para alimentação das larvas mais velhas. Do 7º dia ao 14º, devido ao desenvolvimento das suas glândulas hipofaríngeas, conseguem transformar o alimento comum em geleia-real e passam a alimentar as larvas mais novas das obreiras até ao 3º. dia, as larvas dos zângãos, as larvas das princesas e a alimentar a própria rainha . Do 14º ao 20º dia com o atrofiamento das glândulas hipofaríngeas e o desenvolvimento das glândulas cerígenas, passam a construir os favos, a produzir mel, guardando-o nos favos e operculando-os (fechando-os com umas tampinhas), fazendo também a guarda da colmeia. A partir do 21º dia e até ao final das suas vidas passam a trabalhar no exterior, colectando pólen com os pelinhos das patas e armazenando nas bolsas que têm nas patas posteriores chamadas de corbículas, transportam agua para a colmeia com a vesícula melífera que também serve para transformar o néctar em mel. Recolhem ainda néctar e própolis.
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São as obreiras que constroem as células necessárias para a criação de obreiras, zângãos e rainhas. E a rainha cumpre as necessidades da colmeia. Elas inspeccionam os nascimentos e quando uma abelha sai do seu ninho, destacam-se 2 ou 3 obreiras que a lambem, escovam, dão-lhe mel enquanto a examinam minuciosamente. Se lhe encontram algum defeito de conformação que possa representar incapacidade, ainda que mínima, para o trabalho, sacrificam-na implacavelmente.
São também as obreiras que decidem quando é a altura de sair um enxame da colmeia por já estar demasiadamente povoada. Um grupo numeroso de obreiras enche os estômagos com mel, avisam a rainha da viagem e sai uma nuvem de abelhas protegendo a sua rainha, acompanhadas por alguns zangãos. Pousam numa arvore formando uma espécie de pinha gigante enquanto outro grupo vai inspeccionar os arredores para escolher um bom local. Se o local for aceite pelo grupo, começam a construção de um novo ninho, dando início a uma nova colónia.
As obreiras usam cortesias curiosas no trato com a rainha. Uma delas é que em qualquer deslocação ou movimento, nunca se viram de traseiro para a real personagem, conseguindo actuar de forma a manterem-se sempre de frente. Talvez seja essa a razão para não usarem o ferrão quando é decidido eliminá-la por já estar envelhecida. Neste caso rodeiam-na formando uma bola compacta com o seus corpos, acabando por a sufocar sem que a rainha ofereça resistência, aceitando a sua sina.
A rainha não permite a existência de outras rivais mas quando as obreiras decidem que é a altura de preparar um enxame para sair da colmeia com a sua rainha, não permitem que as duas rainhas se defrontem.
Quando a rainha morre e não há substituta, as obreiras começam a pôr ovos nos alvéolos numa tentativa desesperada de refazer a colmeia. Mas, como não são fecundadas, os ovos só irão dar origem a zângãos, formando uma colmeia “zanganeira” que irá perecer em pouco tempo
As abelhas que trabalham no exterior usam vários tipos de dança para poderem informar as suas companheiras sobre a localização do alimento descoberto. Se a dança é feita em círculo é porque se encontra a poucas dezenas de metros. Se é feita formando oitos, o ângulo que faz com o sol indica a direcção a tomar, a rapidez da dança indica a distância e o tempo que leva a dançar indica a abundância do material descoberto.
Os zângãos nascem de ovos não fecundados e não possuem ferrão. Atingem a sua maturidade sexual aos 12 dias de vida. A sua única função é fecundar as rainhas jovens, o que fazem em voo. A duração da sua vida é de 80 a 90 dias desde que não tenham tido o privilégio de fecundar a rainha. Após a cópula o seu órgão genital fica preso no corpo dela, mutilando-os e originando a sua morte. O resto do tempo permanecem inactivos sendo alimentados pelas obreiras. Quando termina a época da abundância são expulsos das colmeias e morrem de fome e frio no exterior.
Os produtos que se podem extrair de uma colmeia são os seguintes:
Mel - conhecido desde a antiguidade foi sendo substituído gradualmente à medida que se iam conhecendo os açúcares refinados extraídos da cana-de-açúcar e da beterraba, mais baratos, mas de qualidade incomparavelmente inferior. O mel é o único adoçante que contém proteínas, sais minerais e vitaminas essenciais à alimentação. É altamente energético e com conhecidas propriedades medicinais sendo um poderoso bactericida;
Geleia-real - produto fabricado por abelhas jovens que contém proteínas, lípidos, vitaminas, hormonas, enzimas. É estimulante do organismo, aumenta o apetite, tem efeito anti-gripal, actua no crescimento, na longevidade, na reprodução das espécies;
Pólen - produto muito rico em vitaminas A e P, proteínas e hormonas. Parece ser eficaz na anemia, no bom funcionamento do intestino, abre o apetite, aumenta a capacidade de trabalho, baixa a tensão arterial, actua nos transtornos da gravidez e menopausa, estimula o pâncreas combatendo a diabetes, aumenta a virilidade e fertilidade;
Própolis - constituída por resinas vegetais que as abelhas colectam de certas árvores, cera, pólen, ácidos e gorduras. As abelhas usam-na para calafetar as colmeias, soldar peças e para envolverem invasores mais corpulentos que tenham sido mortos dentro das colmeias, mumificando-os e retardando o processo de putrefacção por vários anos. Além de ter propriedades antibióticas, tem também acção imunológica, anestésica, cicatrizante e anti-inflamatória;
Cera - utilizada na confecção das velas, na composição de produtos de limpeza, cosmética, impermeabilização, isolamento na indústria eléctrica e em odontologia;
Veneno ou Apitoxina – em grandes proporções é letal para o homem mas em doses pequenas tem sido utilizada no tratamento do reumatismo, nevrites, nevralgias, redução do colesterol, doenças oftalmológicas. Pode ser administrada através das picadas naturais das abelhas mas também por injecções subcutâneas, pomadas, inalações ou comprimidos.

2007-02-12

O prometido é devido - A Chanfana

A chanfana conhecida praticamente em todo o País, é no entanto um prato típico das Beiras e há pelo menos duas povoações que entendem ser as criadoras desta confecção: Miranda do Corvo que se auto-denomina Capital da Chanfana e Vila Nova de Poiares que se auto-denomina Capital Universal da Chanfana.
Vila Nova de Poiares tem uma instituição muito conhecida que é a Confraria da Chanfana, cujo objectivo é divulgar a cultura gastronómica da região e certificar a chanfana cuja origem se perde nos tempos. O seu logotipo representa um forno de lenha, com caçoilos de barro preto e a cabra símbolo da pastorícia. Promovem vários eventos como a semana da chanfana em que vários restaurantes disputam anualmente o título de “Restaurante recomendado pela Confraria da Chanfana” para dar a conhecer os profissionais de gastronomia que melhor garantam a autenticidade e a qualidade deste prato ou como “A chanfana à mesa com as nossas crianças” para dar a conhecer às crianças em idade escolar, todo o processo deste prato com o intuito de as sensibilizar para a preservação da gastronomia da região, entre outros.
Mas, não querendo magoar os amigos de Vila Nova de Poiares, a verdade é que não se pode ficar indiferente à lenda que envolve a presumível origem da chanfana em Miranda do Corvo, mais precisamente no Convento de Semide já referido neste blog a propósito do doce chamado “Nabada do Convento”.
Até finais do séc. XIX, o Convento recebia dos moradores do seu couto - agricultores e rendeiros - o pagamento dos foros. A maior parte das vezes esses pagamentos eram feitos com galinhas, azeite, ovelhas, cabras, vinho, etc. E ao que parece seria feito pelo mês de Agosto até finais de Setembro o que ocasionava uma entrada excessiva de animais num curto período de tempo. As freiras teriam resolvido então cozinhar a carne de cabra que seria a mais comum, mergulhadas no vinho (que também recebiam em grande quantidade) nos fornos a lenha. As carnes cozidas assim ficavam cobertas por um molho gorduroso que solidificava e mantinha-as em condições de consumo por muitos meses.
Mas ainda defendem outra lenda e esta tem a ver com as invasões francesas. Alguém se teria lembrado de envenenar as fontes (não sabemos se os franceses para matar os portugueses ou se os portugueses para matar os franceses). Na impossibilidade de usar água das fontes, ter-se-ia inventado cozinhar com vinho. O facto das águas estarem impróprias para beber teria dado origem a uma grande mortandade na pastorícia e o animal mais resistente seria a cabra que se defendia mantendo-se em zonas altas e áridas. Durante a Batalha do Buçaco, o medo de usar a água de qualquer nascente e a quantidade de cabras velhas sobreviventes aliadas à quantidade de vinho armazenado teria levado à invenção deste prato que poderia ser escondido nas caves por tempo prolongado
A receita antiga seria confeccionada mais ou menos assim:
Carne de cabra velha partida aos bocados que se colocava numa panela de barro à qual se juntava azeite, banha, dentes de alho com casca e esmagados, pimenta, colorau, salsa, louro, sal, noz moscada, tudo coberto com vinho tinto bem encorpado. Ficava nesta marinada de um dia para o outro (ou por 2 dias). No dia seguinte aquecia-se bem o forno de cozer o pão, deixando as brasas para se manter por mais tempo, metia-se lá dentro a panela (ou caçoilo) tapada com folhas de couve, estancava-se a porta do forno com cinza ou farinha em pasta e deixava-se cozinhar durante 3 horas ou mais, até o forno esfriar (noutras versões durante um dia e uma noite). Servia-se a partir do dia seguinte à confecção, aquecendo-se dentro do mesmo caçoilo numa trempe junto à lareira, acompanhada com batatas cozidas com ou sem casca e com grelos também cozidos. Hoje adaptou-se a receita mas no geral é muito semelhante.
Há quem faça com carne de ovelha (e julgo que as freiras também fariam uma vez que recebiam ovelhas e cabras), há quem faça com a panela em cima do fogão a gás, há quem use carne de vaca e até... pasmem-se... com carne de coelho.
O animal não deverá ser novo para a carne poder aguentar tantas horas de cozimento sem se desfazer. Aliás deveriam ser animais velhos que as freiras recebiam como pagamento dos foros, uma maneira dos agricultores e pastores se defenderem mantendo os mais novos para si.
Mas já que falei da chanfana a propósito do aproveitamento da carne de cabra, vou falar também em 2 pratos consequentes: a Sopa de Casamento e os Negalhos.
Se pensarmos um pouco, quando as carnes eram totalmente consumidas deveria sobrar muito molho. O espírito aproveitador das freiras deu origem à seguinte invenção: num caçoilo de barro, punham uma camada de couves cozidas, depois uma camada da fatias de pão, depois outra camada de couves cozidas, a seguir o pão e assim sucessivamente sendo que a última camada deveria ser de couves. Regavam tudo com o molho da chanfana, enfeitavam com as sobras de carne e ia ao forno para apurar e tostar um pouco. Chamavam (e ainda se chama): Sopa de Casamento.
Com as tripas e o bucho (estômago para quem não souber) das cabras faziam os Negalhos: Lavavam muito bem o bucho (cortado em bocados grandes) e as tripas (cortadas em bocados pequenos) e deixavam ficar em limão e sal por algumas horas. Temperavam depois com sal, colorau e picante. Dentro de cada bocado de bucho, colocavam bocadinhos de tripa, de toucinho, uma rodelinha de chouriço se houvesse (não esquecer que se estava num período muito carenciado durante a 3ª. invasão francesa) e uma folha de hortelã. Fechavam como se fosse uma trouxa e cosiam com linha ou atavam com um bocado de tripa bem lavada. Iam a cozer no forno de lenha cobertos com vinho tinto e temperados com louro, alho, banha, azeite, malaguetas, por umas 4 ou 5 horas. Serviam acompanhados com batatas cozidas e legumes
Actualmente fazem-se os negalhos recheados com chouriço, salpicão, linguiça, entremeada, pedaços de febra de porco, colorau, cebola, hortelã, tomilho.

Outros tempos, outros recursos.

2007-02-04

Pinheiros - Serpente

Há umas semanas atrás, entrei por acaso no blog PILRITEIRO e fui surpreendida com a série de fotos espectaculares dos Pinheiros- Serpente da Mata Nacional de Pedrógão que eu desconhecia totalmente a sua existência. Fiquei tão impressionada com o tema que contactei o seu autor Augusto Mota que me deu mais informações sobre o assunto. Inclusivé enviou-me um pps com fotos dramáticas tiradas por ele na Praia Velha, em S. Pedro de Moel a outros pinheiros-serpente que mais tarde viriam a ser vandalizados e destruídos, acompanhando as fotos com um magnífico poema de Afonso Lopes Vieira.
Perante o meu interesse em publicar o seu trabalho, teve a gentileza de transformar o pps de forma a poder inseri-lo aqui.



Se tiverem dificuldades em ler as legendas, cliquem sobre "View All Images" logo abaixo da exibição dos slides